A blusa, ficar quieto – Família, infância – Legendas sem Fotografias (2)

Recordações de E.
 
1.
Isto é no rio da Várzea de Sintra, depois de um almoço Domingueiro. Estão os meus pais e eu a simular uma queda, por isso eles estão a rir. E estão a rir porque estão com medo. O riso é isso: eles estão com medo de que eu um dia caia a sério. Tinha 16 anos, foi a primeira vez que calcei sapatos de salto alto. A blusa fui eu que a fiz. Também a minha vida foi eu que a fiz. Com as mãos, com os pés, com a cabeça. Gostava que tivesse ficado tão bem terminada como aquela blusa, mas a vida depende de muitas outras pessoas, de muito material que não dominamos. É muito confusa. Às vezes apeteceu-me dizer: façam vocês a minha vida, eu já estou farta. E já não sei fazer isso. Estou velha demais para decidir qualquer coisa. É estranho, não é? A pessoa sentir que já não sabe fazer uma blusa é uma coisa, sentir que já não sabe decidir o mais importante na vida, isso é bem mais grave. Mas é bom ver estas imagens: sabia nesta altura fazer uma blusa. Isso é muito impressionante, não é?
 
2. – Deve ter sido em 1943, eu tinha para aí 4 anos, a minha mãe mandou fazer este vestido. As lojas do meu pai eram muito perto, ali na Baixa, e a minha mãe levou-me ao meu pai e ele gostou tanto de me ver que pegou em mim e me levou logo ao fotógrafo.
Começamos desde muito novas a querer ficar bem na fotografia. Eu não sabia que esta imagem ia resistir até hoje. Eu, nessa idade, de 4 anos, sabia muito pouco. Mas sabia que naquele momento tinha de ficar bem quieta. E isso era muito sério. Estar muito quieta quando se tem quatro anos não é para qualquer um. Estar sempre a mexer-se de um lado para o outro é bem mais fácil. Em frente à máquina ou mesmo na vida. Viver sem se mexer muito do lugar não é assim tão fácil. Para mim não foi.
 
 
a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

Ilustração de Ana Jacinto Nunes

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