Filmes e fotos de infância, a memória – Luz e fogo (4)

Ilustração de Ana Jacinto Nunes

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins

1.
Cada pessoa está sentada diante do tempo, em dissecação continuada ou saltada. Que fez e viu o meu corpo enquanto era novo e o que desse percurso ficou no exterior?
As imagens recuperam a sua origem, essa câmara escura que roubava luz e figuras da realidade e no início as virava de cabeça para baixo. E sim, a memória é também um acto manual: há nela imagens de cabeça para baixo, outros tortas ou deformadas, imagens que perderam a parte de cima ou os pés, imagens que perdem a cabeça, literalmente ou de modo metafórico.
 
2.
Uma imagem que perdeu a cabeça não é necessariamente uma fotografia de fotógrafo desastrado que faz retratos do pescoço para baixo como se o rosto fosse um segredo. Uma imagem que perde a cabeça pode ser também uma imagem alucinada, uma imagem com luz vinda de demasiadas direcções – a alucinação é isso: uma luz distinta e imprevista.
 
3.
Cegueira como forma de cortar a recepção da luz exterior e assumir que, a partir dali todas as imagens são memória ou invenção, mas internas e privadas.
É sempre um trabalho de cegueira, a memória; só de olhos vendados quem vê pode recordar. Trata-se de uma suspensão do presente e da paisagem. Quero recordar, não quero ver. Quero voltar a ver o que já vi. Somos como alucinados diante de fotos antigas: este sou, este o meu pai, esta a minha mãe.
 
4.
Diante de fotografias, comovo-me com esta projecção de uma luz que ainda existe embora a sua origem já tenha desaparecido. O corpo desapareceu, mas ficou uma certa forma bela e antiga de interromper o escuro.
5.
Pergunta: O que são fotografias de infância? 
Resposta: uma certa forma bela e antiga de interromper o escuro.
 

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