Máquina e identidade – Luz e fogo (3)

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins
 
1.
A máquina apoderou-se da memória – e a fotografia introduziu uma tristeza técnica que antes não existia.
A tristeza a que um quadro tem acesso não é da mesma dimensão da tristeza a que se acede por via de uma fotografia.
Na imagem captada pela técnica, há a sensação de um momento que se perde para sempre e que na pintura, no desenho ou na escrita não existe da mesma maneira. 
O realismo introduzido pela imagem técnica coloca o coração do memorioso em evidentes apuros.
É evidente que te podes comover até com a arte abstracta, ponto linha e plano de Kandinsky, o senhor estético que chora uma lágrima qualquer por causa de uma qualquer linha azul. Mas tais sujeitos delicados são raros. Mesmo a pintura figurativa ou a descrição detalhada de um familiar, por via da escrita, jamais chegam a esse punctum em forma de poço ou queda que existe na fotografia de um nosso familiar que já morreu ou na nossa própria fotografia anos atrás – esta nossa fotografia que retrata, diga-se, um familiar nosso que já morreu. Nunca somos nós na fotografia: na fotografia somos um familiar defunto de nós próprios. Só não choramos sempre que vemos uma fotografia nossa por distracção ou pudor. Agora e na hora da nossa morte.
 
2.
A nossa fotografia, de há trinta anos é também, então, a fotografia de um familiar que morreu – um familiar bem próximo, o mais próximo que existe, aliás. Mas como designar este familiar que está na fotografia e que sou eu, afinal, anos atrás? Não é o meu irmão mais velho ou mais novo, não é o meu pai nem o meu filho, sou eu, mas claro que não sou eu. Eu já não sou o que fui – e as formas verbais da linguagem ensinam o possível ao portador afectivo dessa linguagem – e tenho aquilo que fui nas minhas mãos quando pego numa fotografia. E sim, é urgente encontrar um nome para este estranho familiar que a fotografia coloca à minha frente. É aquilo que eu já não sou, é o meu não, o meu negativo, o meu antes.
 

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