Memória e Fotografia – Luz e fogo (2)

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins

4.
As fotografias são memória em película.
Quando pegas na tua memória com as mãos podes queimar-te.
As fotografias são feitas em parte de fogo, isso é evidente.
Cuidado com as mãos.

5.
O século vinte ficou técnico dos pés à cabeça e o que, em muitos séculos, era memória em desenho e escrita bateu de frente com essa revolução. Há muito que as mãos produziam artefactos para o humano não esquecer a família ou a cidade, mas a invenção da fotografia e do cinema colocaram a tecnologia ao serviço de uma nova memória, mais meticulosa e exacta e mais democrática. Não precisas de saber desenhar ou escrever, accionar um botão basta.
A matéria da memória deixou de ser feita com as mãos hábeis, deixou de ser arte de artesão. Até ao final do século XIX, as mãos faziam objectos e memória – quando escreviam e desenhavam; mas agora parece bastar um dedo fazer o gesto mais simples e uma pequena pressão.
As mãos tornaram-se secundárias e acima de tudo a aptidão artística foi colocada no armazém ou no museu. Já não precisas de ser escritor ou pintor para fixar um rosto ou uma montanha que não queres esquecer.
Carregar num botão não tem a mesma dificuldade, apesar de tudo, do detalhe que o quadro exige das mãos e de um pincel.
Podes, se for caso disso, accionar a máquina fotográfica com o cabo do pincel de um pintor antigo – mas tal é uma performance, não uma necessidade.
Só um completo desastrado de dedos não consegue, no século XXI, tirar uma fotografia ao seu pai ou ao seu filho. Se a fotografia é boa, de luz e intensidade, isso é outro assunto. A família, a memória e a tecnologia, eis três palavras que se aproximaram muitos – talvez demasiado – nos últimos anos.

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