A tribo mínima

1.
Uma estação de caminho de ferro abandonada.
O comboio não se esqueceu do caminho nem explodiu com uma bomba qualquer, simplesmente desapareceu com a simples modernidade. Ou com a mudança de direcção do comboio.
Já não passa aqui, as linhas rectas conduzem-no para outro lado.
Um casal come no chão, entretanto. Nesse chão estranho.
Um piquenique no chão porque sabem que ali não vai passar o comboio. É seguro.
Cada um, de cada lado, como se os carris fossem o lençol metálico colocado na terra para este piquenique triste.
Mas este lençol jamais será de novo levantado, a não ser pelos ladrões que já não querem saber que aquele ferro antes foi estrada – e como a memória tem valor baixo no mercado, o ferro, por onde passava o comboio, passa a ser simples ferro e a ter o seuvalor em peso.
Não importa a função daquilo que não funciona, mas o peso.
 
2.
Não importa a função daquilo que não funciona, mas o peso.
O peso dos mortos, o mais terrível peso daquilo que já não funciona, daquilo que já não tem funções – espaço, corpo do morto onde os órgãos se calaram e ficaram imóveis.
É a memória humana que faz, do peso dos mortos, o grande peso afectivo. O mais valioso dos pesos puros.
O ferro também pesa, sim, mas não da mesma maneira.
 
3.
Sempre se soube isto. Um forte humano sozinho vale por uma vasta tribo fraca.
Leio que há um movimento cultural sul-coreno, chamado honjok, que “elogia a vida solitária”.
Honkoj significa “tribos de um homem só”.
A ideia é que o prazer da existência seja canalizado para o isolamento. 
Criar “solitários de sucesso”, diz um especialista em honjok.
Prioridade “para uma vida interior” em detrimento de uma vida virada para fora. E o fora são os outros.
Quando três destes humanos se juntam, estão ali, em pouco espaço, três tribos de um homem só.
A grande tribo mínima: um.

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