Ainda o discurso do homem que está muito ligado a casa

1.

Por vezes tenho isto nas costas, este incómodo, como se fosse a cauda de um animal.
Um animal doméstico, pois claro, pois a minha cauda é, afinal, um cordão umbilical e essa pele que deveria ter sido destruída logo à nascença e enterrada em solo bem fundo e inacessível, afinal continua aqui nas costas, e vai andando pela cidade e termina na fachada principal da casa.
Estranho, como se fosse um tubo que fizesse parte de uma canalização de água, gás, algo desse tipo.

2.

E, de facto, trata-se de um cano, um cano humano, este cordão umbilical, e é ali que António vai buscar a sua energia; como se fosse um posto de gasolina mais ou menos paternal.
E podemos descrever a paisagem do seguinte modo: o cordão umbilical fortíssimo, espesso, grosso, e bem difícil de mastigar, vindo da cauda de António, entra pela parede da fachada principal para dentro de casa e vai directo ao centro, ao poço que está na sala, e ali vai ele, para baixo, como se fosse uma mera mangueira, um cano bem orientado.
É do fundo desse poço que António retira a sua energia.

3.

E claro que existem amigos e inimigos e por vezes cães ou lobos ou hienas, animais domésticos ou selvagens, que têm em comum estômago e impaciência e subitamente zás, comem uma parte do meu caminho de regresso, comem uma parte de um itinerário, como se cortassem com os dentes um mapa físico, um mapa material. E se estão com fome que comam, ninguém deve exigir mais dos animais. Eles já nos dão tanto!

E foi isso que aconteceu. De repente, a minha cauda estranha, o meu cordão umbilical, foi interrompido algures lá atrás, a meio do caminho e dessa forma a circulação de energia foi também suspensa. Estou fraco porque animais vários arrancaram e mastigaram o meu caminho de volta.
Estou, pois, perdido. Não sei voltar a casa.

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