Circunferência e Medo

1.

Estamos no mundo, diz Anteu, para baixar a temperatura que apedreja as coisas com a sua irritação.

Temperatura desejamos entre corpos que estão demasiado sozinhos e poderiam, quando juntos, ser – ou tornarem-se pelo menos por minutos – geógrafos instantâneos que avançam a quatro pés e se orientam pelo dia como se em itinerário na casa comum de infância que nunca tiveram, claro.

Uma alegria que ensine a dispersão como se um corpo pudesse ser em mente o que é a forma de explosão de um bando de pássaros assustados em que cada um se atira para um canto diferente do nada que existe acima do solo deixando 360 linhas que saem do centro do medo para um ponto da linha da circunferência onde se sentem seguros.

2.

Um medo que provoque disciplina e linha rectas e não caos e fugas descontrolados na cabeça, pés e trajecto.

3.

Há uma linha invisível no espaço que permite que nele pássaros cansados e acossados possam pôr patas e sossego e ficar ali como se em vez de animais voadores fossem seres com peso capazes de levitar como uma curiosa neblina com fome. Essa neblina faz sons, quem diria; mas dela não vem apenas a melodia e a pequena leveza; há dejectos, excelência, tudo o que canta tem também no mundo outras obrigações impostas pela vida – bem menos belas, senhor, bem menos belas.

4.

Mas se uníssemos a posição final em que o medo colocou cada membro da matilha medrosa, traçaríamos uma absolutamente perfeita circunferência com o compasso óptico, esse modo velho e orgânico de encontrar no mundo as velhas formas de Platão: quadrado, quadrado, triângulo, por vezes; circunferência sempre.

5.

A circunferência, não há forma que mais satisfaça a gula do olho.

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