O caminho para casa

Um pedaço de pele que de perto provoca uma certa repulsa, um tremor em quem está diante de algo que deveria ser íntimo e está ali, afinal, bem explícito.

Um cordão umbilical que sai da casa de António e vai até às suas costas; um cordão umbilical mesmo, real, que existe, tem carne, e pode ser esticado até ao infinito, capacidades elásticas invulgares; é isto, de resto, a família – um modo bem material de não te esqueceres do caminho para casa.

Um pouco como nos mitos dos meninos que se perdem e deixam vestígios atrás de si para reconhecerem o seguro caminho para casa. E aqui também há o risco que existe quando se deixam alimentos a definir um itinerário de regresso. O risco é sempre o mesmo. Aqui também com o enorme fio de cordão umbilical que pode ter a dimensão, o comprimento, de centenas, milhares de metros, milhares de quilómetros, o risco é este, é simples: podem vir animais com fome devorar o caminho de regresso. E quando os animais comem o caminho de regresso, as crianças ficam perdidas na floresta ou na grande metrópole, dentro de um elevador, por exemplo, e podem não saber mais como regressar às suas origens. E, de facto, como toda a gente sabe, há uma energia humana, absolutamente alta e irregular, que só pode ser transportada desde a fonte inicial.

Há como que um buraco no centro da sala da casa antiga, um poço dentro de casa, de onde se retira uma água que dá força e é aí que António vai buscar a sua energia. É aí que está ligado o seu cordão umbilical, um cordão que sai das suas costas, como uma cauda.

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