O bunker da aldeia

Está nas traseiras da casa. Na garagem que serve para colocar lá o carro vermelho que Januária acabou de comprar. Um carro absolutamente despropositado, não apenas na cor mas também na velocidade – um carro que pode andar a mais de duzentos quilómetros, colocado ali, no meio de uma aldeia sem estradas, apenas com caminhos para, quanto muito, quatro vacas andarem lado a lado. Mas o prazer de ter um carro vermelho e potente na garagem bastava. E sim, depois, havia o celeiro dos animais e os campos, bem grandes.
E era então na parte de trás da casa, dentro da garagem, agora ao lado do carro vermelho, que estava aquele Bunker, como lhe chamavam todos na aldeia. Era um Bunker mesmo, com dois metros de altura, mais ou menos cilíndrico, que poderia parecer uma enorme garrafa de gás, mas era, afinal, o Bunker onde Deus estava fechado.
O Bunker onde Deus estava fechado tinha apenas uma janelita lá em cima, pequeníssima, que só daria quanto muito para um olho. O certo é que mesmo com essa visibilidade, reduzida, Deus via tudo o que se passava na aldeia, comentava, julgava e castigava. Já tinham pensado em tapar aquela janelita para o olho, que tanto jeito fazia, é verdade, a Deus que estava lá dentro mas que, por vezes, se tornava um incómodo – era como se a aldeia fosse vigiada constantemente por um helicóptero que sobrevoasse cada cantinho, cada casa de banho, cada barracão escuro onde namorados tentavam resolver rapidamente a sua excitação, cada acto escondido, cada fala secreta, etc.
Deus que estava fechado num Bunker dava indicações, murmurava coisas, quase sempre incompreensíveis, enfim, fazia o seu trabalho mesmo chegando ao exterior apenas por aquela janelita mínima que não teria mais do que dois centímetros por dois centímetros.
Numa noite de passagem de ano, naquelas noites em que todos bebem demais, quatro adolescentes – o mais velho não teria dezoito anos e por isso não foram castigados a sério nem presos, claro – mas, então, nessa noite de passagem de ano, já bem bebidos, os quatro rapazes convenceram mais três ou quatro para irem à garagem atirar Deus, que estava fechado num Bunker, para o rio. Juntaram-se, organizaram-se, ataram uma corda, duas, três ao Bunker e, depois, primeiro num movimento em conjunto, derrubaram o Bunker onde estava Deus – que passou, então, de ser um elemento vertical para estar junto ao solo, deitado, como que morto. E a seguir transportaram-no como se transporta realmente um morto ou uma peça de mobília preciosa e antiga. Era preciso muito força porque o Bunker onde Deus estava fechado era pesadíssimo, mas eles tinham toda a noite da passagem do ano para carregar o Bunker no que parecia de longe um cortejo qualquer demoníaco; muitos rapazolas, agora seriam talvez uns quinze, dezasseis, em redor de uma massa metálica compacta que era arrastada sem opor resistência.
Chegarem assim à beira do rio com o Bunker onde estava Deus; cantaram uma canção obscena e, depois, ao sinal do chefe do bando, empurraram, com mãos e pés, o Bunker onde estava Deus para dentro do rio. Um enorme estrondo, um ruído gigantesco fez o Bunker ao cair e ao bater no muro da margem e, nesse mesmo instante, os miúdos começaram a correr como malucos, a fugirem dali, aos gritos, ao mesmo tempo com medo e orgulho.
Houve buscas no dia seguinte, alguns habitantes de aldeia até mergulharam, sustendo a respiração o máximo possível para irem bem ao fundo, mas o certo é que o Bunker onde estava Deus nunca mais apareceu e ainda hoje deve estar algures no fundo do rio, inútil e encalhado.

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