Flores e sonambulismo

1. A mulher que se levanta de noite

 

Montava-se a maquineta, como era conhecida, improvisando ligações e aproveitando material de utensílios fora de circulação. Os cintos de segurança de um automóvel que tinha sofrido um acidente terrível – o carro caíra por um penhasco abaixo e o casal, que acabara de saber que a mulher estava grávida, morreu, – do automóvel pouco restou, então, mas esses cintos de segurança, que mesmo no meio da tragédia haviam feito o seu trabalho, estando ainda funcionais, haviam sido arrancados e transplantados, por assim dizer, para a cama de Margarida, que era sonâmbula desde os cinquenta anos, mas agora, com oitenta e seis, se tornara muitíssimo perigosa para si própria nessas deambulações nocturnas inconscientes.

Não fora fácil, mas os três filhos, depois de discutirem, concordaram que era a única solução. E assim prendiam todas as noites a mãe com esse cinto de segurança – mecanismo que, sem o saberem, já era manipulado e dominado por completo, mesmo durante o sono, pela velha Margarida que, sonâmbula, fazia primeiro um acto de Houdini modesto, desapertando os dois – eram dois – cintos de segurança – primeiro o que rodeava os braços, depois o que lhe segurava os pés, e lá avançava depois ela para as suas diatribes errantes pela noite da casa. Quando voltava à cama, sempre a dormir, deitava-se, dobrava-se a custo e fechava o cinto que lhe segurava as pernas, depois o 2º cinto de segurança, o que lhe ficava ao nível do peito, e ali ficava, então, adormecendo, já tranquila, depois de um pequeno passeio inconsciente.

Mesmo sendo visíveis muitos objectos fora do sitio, uma outra vez partidos, os filhos não compreendiam nada, e culpavam um animal que pudesse ter entrado por ali, pela casa deserta.

2. A seita

Era uma seita de adolescentes, mas seita sim. Pelo menos era essa a palavra que eles utilizavam, numa espécie de reuniões secretas, realizadas em pé, no meio de recreio, reuniões que duravam por vezes não mais do que uns segundos.

Andavam, depois, por toda a aldeia, a pares – porque um vigiava e o outro actuava e limpava a aldeia de flores. Era uma seita contra as flores. Tudo homens, aliás: rapazes de dez, onze, doze e um com catorze.

Uma seita que só aceitava novos membros que jurassem que não deixariam viva nenhuma flor com que se cruzassem. De dia, quando ninguém estava por perto; ou à noite, em bando, eles actuavam – e já eram conhecidos. Quase não havia flores na aldeia. Apenas algumas dentro de certas casas. E mesmo essas estavam como que debaixo de uma ameaça, uma ameaça estúpida, inconsequente, sem sentido algum, uma ameaça de um grupo de adolescentes, de uma seita, como eles se designavam, que certamente se extinguiria, de forma natural, quando os miúdos crescessem e com o seu crescimento deixassem as flores em paz.

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