A orelha

Conta-se isto: um homem ficou surdo, o homem mais importante da aldeia, porque uma águia lhe levou uma orelha.
É bem visível a águia em redor da igreja, quando os sinos batem a horas certas; e quem está lá em redor aponta para o céu e vê aquele animal ágil que leva nas suas patas uma orelha.
Há quem tenha olhos meticulosos e há quem use binóculos, mas garante-se que só as pessoas da aldeia conseguem ver a tal orelha.
E dizem também que foi assim que Beethoven ficou surdo: uma águia levou a orelha de Beethoven, e há quem diga que aquela orelha que alguns vêem ali, nas patas da águia da aldeia, é ainda a orelha de Beethoven – é isso pelo menos que os mais velhos garantem. É a orelha de Beethoven.
Por vezes vêm admiradores de aves, ornitólogos de todo o mundo com as suas poderosas máquinas fotográficas, tentar apanhar a águia que tem a orelha de Beethoven. Mas, por alguma razão estranha, as máquinas fotográficas não são suficientemente ágeis, porque é disso que se trata – de agilidade – e esta é uma qualidade que muito existe nos animais, enquanto as máquinas, apesar dos seus complicados algoritmos internos, não entendem o que é isso de agilidade. Entendem a pontualidade, entendem os cálculos e a contabilidade, entendem o ritmo certo e os ritmos errados, entendem a competência e sabem cumprir uma ordem na perfeição, porém as máquinas não entendem essa coisa tão básica e ancestral que se chama agilidade.
E é por isso – por essa falta de agilidade das máquinas – que não se conseguiu até hoje fotografar a águia que leva nas patas a orelha de Beethoven.
Mas quem vive na aldeia, diz que não há dúvidas. A águia antiga leva nas garras uma orelha preciosa.

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