O louco da aldeia

Na aldeia há isto: noite que vem subitamente como um ataque de lobos, e assusta. E depois alvorada, estridente, uma luz que parece assobiar aos ouvidos e não deixa ninguém dormir. Todos se levantam de um salto como se o solo exigisse a sua presença humana desde o primeiro minuto de luz. Luz como o chefe exigente que aponta cada segundo de atraso num bloco de notas implacável e mau – que será passado a Nosso Mau Senhor, o diabo, que gosta de maltratar os preguiçosos quando eles já são velhos, têm doenças, incapacidades físicas profundas e já não se podem defender. E por isso, na aldeia, levantam-se de um salto, quase assustado, quando sentem a primeira luz do dia a coscuvilhar algures entre os olhos e o nariz naquilo que parece uma pena de criança a fazer cócegas.

Há depois o louco da aldeia que anda com um altifalante, um daqueles que amplifica e muito. Um altifalante, para mais ligado – de uma forma amadora e impulsiva mas correcta e funcional – a um amplificador de som; e o maluco ali vai, levando às costas, esses aparelhagem de aumentar, essa máquina de aumentar a maluquice auditiva e pelas ruelas da aldeia vai repetindo uma única palavra:
Luz, luz luz luz!

É maluco, e por isso nunca se percebe se pede luz ou se diz que falta luz ou se está a vender luz como quem vende frutos do campo, ou se aquela palavra luz perdeu, para o louco, o sentido original, e agora é para ele apenas o mesmo que um grito, o substituto de um grito – em vez de gritar e assustar as pessoas, quem sabe o louco terá optado por uma das muitas palavras que o dicionário contém, e por isso ali anda a gritar luz luz luz.

Mas o certo é que aquela palavra perturba e muitos interpretam aquele andar pelas ruelas do louco Joaquim, com a aparelhagem às costas, como se fosse uma mochila, com alças e tudo, construídas pela mãe do louco, isso mesmo, uma senhora respeitada cada vez mais porque é mãe, e é mãe de um louco, respeitada como se ela própria fosse a doente; nenhuma mãe é mais respeitada do que a que tem um filho louco, mas sim, foi a senhora Ifigie, assim se chama, quem coseu as alças daquela mochila improvisada e o louco, bem tratado por todos os da aldeia, ali está, um minuto depois, ou nem isso, da primeira luz do nascer do sol, ali está ele, caminhando por todas as ruelas da aldeia, perto das janelas das casas, a gritar: luz luz luz.

No fundo, é isso, ele acorda a aldeia e transforma a luz, algo visual, num signo sonoro – Luz LUZ LUZ, e é valorizado como se aquilo fosse uma profissão; alguns não se coíbem mesmo de lhe pôr moedas no bolso como quem paga por fora ao carteiro ou ao homem que traz o pão.

Aquele homem, de facto, não traz pão, mas traz luz, pelo menos uma luz que entra pelos ouvidos e obriga os preguiçosos a levantarem-se. O carteiro, o padeiro, e o homem que traz luz através de um altifalante. Três ofícios essenciais.

Em vez de música desastrada e demasiado ouvida, aqui, na aldeia, escuta-se uma palavra que para alguns é interpretada religiosamente. Aquele homem, com uma mochila improvável às costas, traz uma recordatória para cada habitante: não te esqueças que há luz.

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