O herói da aldeia

É muito comum, nos livros antigos, falar-se do Atlas que levava o mundo às costas. Noutros mapas, o mundo em vez de ser levado por um brutamontes, era conduzido, tranquilamente, por uma tartaruga que rodava à velocidade exacta da rotação da terra. Agora, com novos cálculos e novos aparelhos para ver, já se percebeu que não há tartaruga – ou, pelo menos, àquilo a que os antigos chamavam tartaruga, os modernos chamam rotação da terra, atracção gravítica, ou o que seja – e outros nomes mais científicos e menos animalescos. Porém, a hipótese da tartaruga não deixou, mesmo no século XXI, de ser absolutamente fascinante para algumas crianças – e esta capacidade da abrir a boca em oh de espanto intenso não deve ser desvalorizada. O mundo deve continuar a espantar-nos senão é melhor sairmos daqui para outro lado.

Mas agora, dizia, na aldeia, não há atlas, homem forte a levar o mundo às costas, nem tartaruga, há um homem simples, Ramiro, que leva às costas uma garrafa de gás de cada vez. Um homem forte, mas à medida humana e não mitológica. Leva uma garrafa de gás cheiinha através de subidas íngremes a que nenhuma camioneta, ou mesmo motorizada, consegue ter acesso. Não há, pois, alternativa. O homem, que de costas parece um caminhante solitário com a sua mochila bem cilíndrica, o homem é uma espécie de herói modesto, herói da província – pois é ele que leva ali às costas calor e luz. E quem leva às costas calor e luz futuros, quem leva às costas, no fundo, uma parte significativa e essencial do futuro – material para ver as coisas quando está noite e material para não tremer com as temperaturas baixas – quem tem esta responsabilidade merece ser valorizado.

O homem, que já tem as costas tortas de tanto calor e luz e futuro que distribuiu por casas colocadas, plantadas, como árvores loucas, em sítios quase inacessíveis, esse homem então recebe, por vezes, umas moedas a mais, e um copo de vinho. O que é bem pouco para um herói, mas cujas proezas fizeram dele, afinal, pouca coisa: para o exterior, um marreco de quem os meninos da cidade, que nada percebem de esforço e de questões míticas, troçam.

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