Biombos e Monte Fuji

1.

Os biombos japoneses são formas de tapar e anunciar.
De súbito, uma parede móvel que ali está, não para existir, mas para anunciar o que está por trás. Não é muro e daí vem a sua diferença absoluta. Não é para impedir a passagem física, é para impedir um itinerário óptico. O olhar vai no seu caminho e a meio é interrompido. Um biombo.

Uma espécie de véu, portanto: esse impedimento de ver é o início de um erotismo evidente. O biombo como aquilo que eu posso desviar com as mãos, tal como o véu por cima do corpo da mulher ou à frente do seu rosto.

O biombo como uma armadura, não para balas ou lâmina, mas para a simples ansiedade. Uma armadura elegantíssima, leve, transportada facilmente por donzelas de braços alvíssimos e frágeis.

O biombo num espaço obriga também a uma nova circulação, a desvios permanentes; e três biombos num espaço constroem uma micro-cidade com cruzamentos e opções sucessivas exigidas ao caminhante de pequena escala que é o ocupante de uma casa.

A leveza que tapa, a leveza que tapando diz: atrás de mim está o importante. O biombo.

2.

O monte Fuji ali está como repto atirado, desde há muito, aos pintores: estou parado, vê se me consegues captar. O monte Fuji como aquilo que foge ao pintor e à máquina fotográfica ou de filmar.

Não é como um objecto: uma montanha é instável como uma nuvem que tivesse ganhado peso. E, subitamente, o que parece estável torna-se resistência ao movimento.

Uma montanha não está parada, está constantemente nesse movimento de resistência ao movimento explícito que muda a posição das coisas. Diga-se, desde já: a força que é necessária para ter a imobilidade do Monte Fuji. Quem consegue estar assim parado? Uma força atirada para o tempo e não para o espaço; uma intensidade: uma acumulação. O Monte Fuji.

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