Um grande falhanço

Eram os chamados APAGADORES, um grupo de sujeitos perigosos que acreditava que se um homem andasse cem metros para a frente e depois cem metros para trás tudo ficaria igual. O homem acabaria no sítio onde estava inicialmente e, por isso, acreditavam eles, nada teria acontecido.

Mas claro que tal não é verdadeiro. Um homem que anda cem metros para trás e cem metros para a frente, caminha, no total, pelas contas antigas, duzentos metros; e duzentos metros não são o mesmo que zero metros. Ninguém pode apagar aquilo que se fez. Mesmo que ande para trás.

Mas esse tal grupo, os APAGADORES, queria apagar o espaço. E por vezes até sonhavam em conseguir apagar o tempo.

Pegavam na borracha, atiravam-se contra o solo, e tentavam, vigorosamente, raspar a borracha contra o atrito do solo do mundo apagando indícios, pegadas, vestígios e até objectos concretos: mas nada. O solo não se apagava, o chão não desaparecia debaixo dos pés, a cadeira ficava no mesmo sítio; e, com a borracha na mão, ali terminava, derrotado, o grupo dos APAGADORES: não dá para apagar o mundo, exclamavam, desiludidos.

Mas, de facto, era o tempo que verdadeiramente obcecava esse conjunto de homens.

Olhemos para eles. Ali estão, agora, em redor de um relógio. Tentaram primeiro, simbolicamente, usar a borracha para apagar o ponteiro dos segundos, dos minutos e das horas. Mas a borracha não conseguiu fazer isso. Depois usaram a força bruta e destruíram os ponteiros à mão, com raiva; e usaram ainda um martelo para destruir o próprio mecanismo do relógio. E sim, haviam derrotado, dizimado, apagado aquele relógio. Aquele relógio, especificamente, jamais assinalaria de novo o tempo. Porém, algo continuava ali, em redor dos ouvidos. Isso mesmo: o som do tempo a passar: um outro relógio e um outro e outro e outro. O número de relógios era infinito; eles, os APAGADORES, nunca conseguiriam destruir todos os relógios e, mesmo que o conseguissem, o tempo continuaria, algures por aí, afastado dos mecanismos que o medem.

Se destruíres todos os relógios, o tempo não irá desaparecer.

Se destruíres todas as réguas e fitas métricas, o espaço não irá desaparecer.

E se riscares uma frase para a esconder, essa frase – podes ter a certeza – irá aparecer noutro lado; e com letras grandes.

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