O Maestro

 

Contos da cidade-berço





É preciso orientar o mundo e Jeremias tem uma batuta para o fazer. Não é maestro porque não há música no Reino – a música foi proibida assim como todos os sons. É um reino de mudos por via legal. Nem voz, nem instrumentos, nem sequer choques entre seres humanos e entre seres humanos e o mundo. Porque um choque entre dois corpos, diga-se, voluntário ou involuntário, provoca sempre um som, um nefasto som naquele reino legal do silêncio. De um choque, por exemplo, entre a simples perna de um humano e uma mesa, resulta um estalido – e talvez até um imprudente murmúrio de dor. Barulho, portanto. Inaceitável.

E por isso, aquele não é apenas um Reino de impressionante mudez, é também um mundo de lentidão e tranquilidade – tudo anda lentamente, cuidadosamente. É um Reino mudo e de velocidade média baixíssima.

Todos os que foram viver para aquele reino, diga-se, estavam cansados da música, das palavras e do som em geral. Queriam silêncio. Gritaram uma única vez: quero silêncio! – e assim lhes foi concedido (como num conto de fadas meio perverso – o que pedes uma vez, furioso, ser-te-á concedido para sempre, e sem retorno). Estão, pois, esses homens e essas mulheres, na terra do silêncio. Proibido o som.

E é nesse Reino, então, que Jeremias avança com a sua bela batuta de maestro sem orquestra. A batuta serve agora para orientar os corpos – para a esquerda, para a direita – dos elementos da orquestra sem instrumentos. Jeremias, com a sua batuta, manda levantar, baixar, deitar, avançar dois passos, recuar quatro, etc., etc.

Diante dele, o grupo torna-se obediente.

É uma orquestra de posições; e também de gestos, de movimentos. O maestro Jeremias e a sua batuta apontam para um sujeito e, logo depois, um movimento decidido da batuta mostra, sem equívocos, que o maestro quer que o sujeito se levante e se mova para a direita até que Stop. A batuta imobiliza-se aí com firmeza mostrando ao elemento – desta orquestra de posições – que ele deve parar naquele exacto sítio. E assim passam aquelas pessoas as tardes. É um emprego, este, para aquelas trinta pessoas, que recebem generosamente da fortuna de Jeremias.

Todos os dias, todas as tardes, Jeremias ali tem a sua orquestra muda, disponível até que o dinheiro termine. Jeremias imagina-se a dominar uma parte do mundo. Não é o universo, mas são trinta pessoas. É um começo, pensa.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

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