O segredo

 

Contos da cidade-berço

É evidente que Deus está nos doces, nenhuma dúvida sobre isso.

Conta-se isto, e claro que é uma invenção, uma ficção elevada ao quadrado, ao cubo.

A história é esta. Havia um segredo de culinária, um tão grande segredo que a mãe só o passava à filha, a uma única filha; e essa filha, mais tarde, passaria também o segredo a uma única filha, e assim por diante. E dizem que o segredo não foi transmitido em voz baixa, de boca para orelha, em distâncias mínimas. O segredo foi escrito, mas não num qualquer papel – e se alguém o rouba ou se ele desaparece? O segredo foi escrito nas costas; foi tatuado, melhor dizendo. Isso mesmo.

Era assim então que se passava. A receita culinária secreta de um alucinante doce era tatuada nas costas da filha preferida. Essa filha jurava não mostrar as costas a ninguém, nem ao marido (quando o tivesse). E sim, o segredo ali estava bem guardado, passando de geração para geração. Ninguém segredava, insistimos – a mãe passava o segredo à filha num dia decisivo. A mãe dizia: Vou mostrar-te algo que nunca mostrei a ninguém, nem ao teu pai: as minhas costas.

E a sós tirava a camisa e mostrava a tatuagem – a receita mais secreta do doce mais alucinante.

Quando a filha fazia dezoito anos, a mãe tatuava-lhe nas costas a receita e dizia-lhe: não mostres as tuas costas a ninguém. E dizia ainda: escolhe uma única pessoa a quem passarás a receita.

E assim se guarda, conta esta história ficcional, desde há muitos anos, um importante segredo de culinária.
Eis o que a mãe dizia:

Se mostrares as costas a muita gente, o segredo deixará de ser segredo. Se não mostrares as costas a ninguém, o segredo também deixará de ser segredo. O segredo só continuará a ser segredo se mostrares as costas a uma única pessoa, a uma única, a uma única pessoa.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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