O primeiro avião

 

Contos da cidade-berço

Em certos mundos mais primitivos, a santidade era avaliada pela capacidade de voo. Quem subisse mais alto seria considerado mais santo. Diz-se mesmo que a história da aviação começou assim. Não por vontade de chegar ao outro lado do mundo rapidamente, não por vontade bélica ou económica, de subir para atirar bomba ou publicidade lá para baixo, mas que terá começado simplesmente devido à vontade subir assim mesmo – na vertical. O objectivo da aviação era, pois, inicialmente, o céu – e não o resto da terra.

É, neste particular, bem conhecida a história de Ícaro, que talvez tenha subido de mais -mas há ainda a história de Rodolfo, homem que construiu um avião porque queria ver Deus de perto. Isso mesmo. Ele era um mecânico do final do século XIX que acreditava que Deus estava num certo espaço concreto do universo; e que esse espaço estaria localizado num ponto acima das nuvens.

Rodolfo era crente, mas também um técnico. Tinha fé em Deus e nos motores. Construiu, assim, um avião antes de todos os outros para se aproximar de Deus. Um avião crente; um motor crente. Uma tecnologia que avança porque tem fé.

Rodolfo fez, então, sozinho, nas traseiras da casa, essa primeira engenhoca para ver Deus de perto; o primeiro avião crente.

Voltemos atrás e olhemos para toda a cena: ali está ele pronto: Rodolfo entra na máquina. Estudou tudo e não tem medo. Liga o motor e, sim, o engenho sobe. Rodolfo está, então, no ar com a sua fé e o motor que ele próprio montou. É o primeiro avião da História. Rodolfo tem um objectivo: subir o máximo possível até conseguir ver Deus de frente.

Rodolfo sobe, então, ultrapassa as nuvens, e sobe ainda. Está atento; não pára de olhar em todas as direcções. Onde está Deus? Ninguém sabe o que aconteceu a Rodolfo, mas ele nunca mais desceu.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários