Roupa de turista

Pensemos numa personagem que quer guardar todos os caminhos que faz. Guardar mesmo, fisicamente (não é guardar na memória).

E para isso deixa atrás de si, não migalhas de pão como no famoso conto de Hansel & Grettel, mas um fio, uma linha – como outras personagens clássicas fizeram.

No fundo, ele quer guardar um tempo, materializar o tempo do percurso.

Essa personagem, diga-se, tem linhas de várias cores.

Uma linha de fio azul, uma linha de fio vermelho, uma linha de fio preto, outra de fio verde, etc.

Quando está triste e percorre um certo caminho vai desenrolando um fio preto. Quando está ansioso e excitado desenrola o fio vermelho; quando está indiferente, o fio cinzento, quando está tranquilo, o fio branco.

Depois, quando regressa a casa, deposita os fios, que têm o tamanho do seu itinerário, numa caixa.
Mais tarde, meses mais tarde, no final de cada ano, esse homem pode fazer um balanço da sua vida e dos seus percursos. Pode olhar para a caixa e ver se há mais fios azuis ou vermelhos, pretos ou brancos. Que ano infeliz eu tive, pode ele dizer se a sua caixa for dominada pelos fios pretos. Que ano tranquilo eu tive, pode ele dizer se a caixa for dominada pelos fios brancos. Que ano agitado eu tive, pode ele dizer se o vermelho for a predominante.

Uma síntese do ano em cores, eis o que se conseguiria.

E pensemos num turista que guarda, de cada viagem, os fios que vai desenrolando nos caminhos; e que, com eles, com esses fios, com cores resultantes do estado anímico em que estava em cada momento, cose uma roupa. Essa roupa, feita a partir dos fios que resultaram da sua viagem, terá assim cores sentimentais, cores afectivas – e será, portanto, uma síntese da sua viagem.

Mais tarde, esse turista poderá dizer, mostrando a roupa que ele próprio fabricou:
– Eis como foram as minhas férias! A minha roupa é a minha memória em forma de tecido.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários