Almas da Estrada

Nas cidades o ser humano vai perdendo a vida diante desses animais modernos, animais de velocidade bem acima do que é humanamente suportável. Esse animal que mata pelo peso e pela velocidade, é o carro. Os perigosos animais de quatro patas deram lugar ao perigoso animal de quatro rodas.

Uma evolução, dizem (de patas para rodas).

E há também esta história que agora se inventa: Roberto, um navegante sonhador, construiu um balão para voar, um balão de ar quente; e com ele quer fazer uma viagem vertical e não horizontal; quer subir o mais acima possível e não regressar, quer abrir uma fenda no limite do céu com o seu balão de ar quente (como quem parte o telhado de uma casa com a própria cabeça). O balão é a cabeça; o céu, o telhado. 

Conta-se que Roberto teve um desgosto: alguém que amava morreu, alguém que amava foi destruído pelos dentes da velocidade desse animal de quatro rodas (a velocidade tem dentes, tem boca, tem fome, tem raiva!).

E ele quer, então, esquecer o solo e avançar para o céu. Ali está ele, então, Roberto a tripular um balão de ar quente.

Roberto leu, em tempos, que a raiz de uma figueira-brava chegava a ter, em certos locais bem hospitaleiros, cem metros de profundidade. Pois então Roberto fez isto: foi até junto dessa árvore de fundíssimas raízes, escavou e escavou e agora ali vai ele com o seu troféu enrolado: cem metros da raiz de uma árvore estão já no interior do seu balão de ar quente! Que peso tem essa raiz gigante!

Mas como quer Roberto que o seu balão suba até ao céu com essa raiz tão pesada como carga?

Roberto, no entanto, insiste, quer esquecer quem morreu, quer chegar ao céu com a maior raiz de árvore do mundo. Uma espécie de dádiva: levar ao mais alto o que está mais fundo.

Mas, claro, já era previsível, o balão não levanta voo. A raiz pesa demais.

Como não pode homenagear os mortos, subindo, Roberto decidiu deixar uma mensagem no chão, na estrada: uma alminha – um pequeno retrato que tem ao lado um bilhete onde está escrito:

Apesar de tudo, não é possível afastar as raízes do solo.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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