Corpo e caminho

 

(regresso à meada de ouro – ao fio, ao itinerário dourado)

1O corpo humano, de cima para baixo não termina nos pés, mas no solo, no caminho que está por baixo. A anatomia humana é, pois, isto: em cima não termina na cabeça, mas sim no céu. Em baixo, não termina nos pés, mas sim no solo.

Um novo caminho é assim uma forma de cada homem mudar de anatomia. Muda de vida, muda de caminho.

2Todo o caminho existe enquanto chão que serve de suporte e se mantém por ali. Mas como mostrar o caminho que se fez num determinado momento?

Como transformar numa forma concreta e material o esforço de uma caminhada?

Este foi o caminho que eu fiz, diria alguém se conseguisse pegar na estrada que percorreu. Mas é difícil pôr na mão o chão inteiro.

3E a imagem é esta (numa ficção, num sonho): levas ao colo, transportas nos braços, não uma criança ou um objecto, mas o itinerário que acabaste de fazer.

Este é o caminho que fiz, aqui to deixo, ofereço-to.

E quando se faz um percurso, os pés traçam algo de novo no chão; avançar é uma forma física de iluminar; avançar é iluminar o exterior com os músculos. Um corpo que atravessa um caminho é uma luz temporária que ali vai. Respeitemos essa luz; uma forma modesta de ouro.

4Uma outra história que se conta é que num certo lugar sagrado da antiguidade, alguns caminhos, pelo meio da floresta, eram tão fortes que quem avançava por eles, durante dias, desaparecia literalmente aos poucos: desfazia-se de cima para baixo no próprio caminho; era um corpo humano que se transformava em estrada. E aquilo que assustava alguns, aqueles que pensavam em raptos e em tragédias semelhantes – os homens desaparecerem naquela estrada! – alimentava a imaginação de outros. É uma forma de oração amorosa, pensavam os segundos: transforma-se o caminhante no seu caminho¸ transforma-se o amante na coisa amada.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários