Carros, Monumentos e Procissões

 

Carros, Monumentos e Procissões

1Todo o carro é a manifestação – nadamodesta – desse velho, e novo, instintonómada.
O mundo divide-se a partir de dois tipos de cadeiras
1 – a cadeira que não se move – cadeira que quer manter-se no território (ou no metro quadrado) onde está
e
2 – a cadeira que se move – cadeira que está dentro de um recipiente com rodas que avança
(O que é um carro? É um recipiente com rodas que avança e que tem lá dentro cadeiras.
O que é uma cadeira? É o modo de a matéria se colocar a jeito para receber um corpo que não quer fazer esforço).

2Quando se constrói um pesado monumento diz-se: quero ficar aqui.
Quando se faz um carro – com motor, sem motor, o que for – diz-se: não quero ficar aqui.
Podemos, claro, ser nómadas durante anos ou meses ou apenas durante um dia ou trinta minutos, mas o humano é isto: inventa o que aí vem para não estar quieto.
(eu vou ali e já venho – eis o nómada rápido, o nómada que poupa nos pés e no trajecto)

É evidente ainda que há uma forma nómada bem antiga que é a de ser nómada em linha recta. Este é o nómada que sai e se afasta cada vez mais do ponto de partida.

3A procissão, o cortejo e o desfile são, por seu turno, formas antigas e modernas de ser nómada num itinerário de circunferência: avança-se lentamente até ao ponto de onde se partiu.
Um carro de um cortejo é um carronómada-de-circunferência.
E em certos cortejos, os animais vão à frente porque é deles a sabedoria que reconhece os indícios não-verbais. E vão também atrás, os animais, porque os homens sentem-se bem assim, entre dois limites iguais. Se recuares, encontrarás o animal; se avançares encontrarás o animal. Onde está o homem, a mulher, o sacerdote, o guerreiro, o camponês? Estão ali, no meio, entre um animal e outro – e assim está bem. Eis a procissão.

É preciso, também, claro, uma certa encenação. Somos consumidores de actos e quem ali vai, no carro da procissão, não quer apenas fazer algo, quer também que alguém veja (que todos vejam) o que se vai fazer. Não há cerimónias de sacrifícios sem espectador, mesmo que o espectador seja essa entidade calada e quieta, sem forma nem cor, transparente, sem cheiro ou paladar, essa entidade a que se chama Deus.
Monumentos, carros e procissões.

Nota final – Nestes tempos de calamidade, ficar em casa é muitas vezes não apenas ser salvo, mas salvar. Em certas partes do mundo, por isso mesmo, ficar em casa é urgente.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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