Outra língua, outro tempo

 

Outra língua, outro tempo

1Uma bela ideia, que não se confirmou até agora.
Volto a Paul Virilio, o estudioso da tecnologia, numa entrevista já clássica, feita há uns anos por Luisa Futoransky.

Virilio disse:
“A ONU prepara o UNL, o Universal Network Language, quer dizer, um super-esperanto. Uma só língua. Será formidável. Todos poderemos perceber-nos e ao mesmo tempo será a confusão das diversidades. Estamos perante terríveis paradoxos.”

Sim, terríveis paradoxos: o igual e o diferente.
 

2Mas pensar numa língua do século XXI, sem ligação nenhuma ao passado. Uma língua fundada a partir do som zero, da utopia do som zero. Inventar novas sons para uma nova língua; uma língua que nasça já no século da Técnica. Uma língua que tenha sons que só venham do artificial, das máquinas.

Substituir cordas vocais, a garganta e as possibilidades orgânicas de som pelas possibilidades artificiais de som. Um som que venha das máquinas e não dos órgãos humanos. Uma nova língua humana, portanto, mas criada com base em sons de computador – bip bip – e de máquinas.

Pensar também, diz um amigo, Jonathan, pensar num hino do século XXI feito apenas desses sons recolhidos do funcionamento das máquinas. Não de máquinas musicais, mas de outro tipo de máquinas, de máquinas úteis. Criar um hino a partir dos sons da utilidade, dos sons da utilidade do século XXI.
Um hino metálico, disse Jonathan. Um hino informático.

Um hino composto de zeros e uns; zeros e uns que produzem sons, zeros e uns sonoros.
Porque o som provocado pelo 001 será completamente diferente do som que resulta da sucessão 0001.
Um som racional, sim. Uma música informática.

E, por outro lado, pensar na criação de um novo tempo, sem ligação com a rotação da terra ou com o sol. Sem ligação com os ventos.
Uma nova unidade de tempo ligada à tecnologia. Eis outra hipótese.
 

3Porém, hoje, desde o Oriente ao Ocidente, depois deste vírus, talvez esteja a aparecer uma nova unidade de tempo do século XXI. Uma unidade definida não pela tecnologia, muito menos pelos planetas.

Estar dentro ou fora de casa não por causa do bom ou do mau tempo lá fora, mas sim por causa do mau do vírus. Tempo sem vírus, podemos sair; tempo com vírus, não podemos sair.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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