Poemas do Oriente

 

O Outro

O direito, o esquerdo.
Leis, aquilo que está ao lado direito do homem,
e a possibilidade da eventual
bondade.
O esquerdo, o diabo.
Mas há um terceiro lado
que mistura
tudo.

Observação

Não tocar nos acontecimentos, ouvi-los.
Vida própria como um objecto 
que não pode ser tocado, 
destino que pede silêncio,
cumprimento delicado da cabeça.
Ou vida como matéria de artesanato,
as tuas mãos determinam a forma final
de cada dia.
Conflito ou negociação.
No calor, água; no frio, fogueira.
O carteiro não pára,
o homem nunca está contente.

Aquilo que não ocupa espaço

O mais forte pode ser vencido, 
o mais inteligente e rápido também, 
o mais rico pode ter menos uma moeda 
        do que um forasteiro, 
mas aquilo que não ocupa espaço, 
não fala, não tem expectativas,
não tem também rival.

Recordando dias de agosto em Kyoto

1Kyoto, em agosto.
Exausto, pede para descansar.
Se parares de avançar, morres,
se continuares a avançar, morres.
O que fazer, então? Pergunta.
Salta ou escavar.
Não avançar e não deixar de avançar.
Como de saltar te cansas, acabarás a escavar.
Não avanço, não deixo de avançar.

2Ele não quer morrer.
Em pleno agosto, quarenta graus;
com as mãos escava
à sombra de uma árvore.
Acabará no inverno
como se o frio fosse um local,
um sítio a que se chega
escavando,
com a paciência certa.

3Uma árvore que dá tempo 
como outras dão cerejeiras.
Dia de sol tremendo. Calada e quieta
e até surda
ela acompanha 
e dela recebo o mínimo.
Sombra como outro fruto 
nesses dias de agosto 
em Kyoto –
o mais antigo e o que mais acalma.
Dá sombra, a árvore, comida
que ainda existe para o cansaço seguinte,
fruto que não consegues roubar
ou sequer mudar de posição.
Cerejeira e sombra, o local
da escrita nesses dias de agosto
em Kyoto.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários