O Bunker

Bunkers, espaços misteriosos: não podes entrar. Só um tem a chave. O bunker é uma aparição metálica no meio do campo, espaço que não pode ser destruído. Ter medo, muito medo, daquilo que não pode ser destruído. Os novos imortais, os novos deuses: os bunkers. A engenharia a fazer novos deuses.

Bunker, em tempo de guerra, como novo espantalho: chama as bombas para si e afasta-as do humano. Uma armadura imóvel.

Pensar num bunker, que só permite entrar – não permite sair. Um bunker que te salva, sim, mas depois jamais poderás sair do espaço que salva. Ficarás salvo, mas imóvel. Salvo, mas preso. Só será salvo quem abdicar da vida exterior, quem abdicar do passo ao lado. A salvação como resultado da primeira e última resignação.

O bunker como elemento de uma religião nova, uma religião técnica. A salvação está lá dentro. Construir a salvação com materiais concretos e pesadíssimos, construir a salvação com medidas concretas, com fita métrica e balança; uma salvação que é o inverso da salvação pelo espírito. Salvação pela técnica.

Imaginar uma enorme extensão de espaço vazio com milhares de bunkers que se erguem do chão como se fossem árvores. Bunkers acima do solo. E sim, imaginar que, em cada um desses bunkers, está um humano com meios para sobreviver, se necessário, um século.

Uma área que é só vertical: do bunker para baixo, uma enorme cave que permite tudo. Mas não haveria ligações entre bunkers, os bunkers seriam totalmente individuais. Casais separados, pais separados dos filhos. Todos vão sobreviver, todos serão salvos, mas jamais um humano que se decide salvar poderá tocar noutro. A salvação é também o isolamento. A salvação é a eliminação do tacto, do toque, eis a maldição: só poderás tocar em ti mesmo até ao fim dos tempos.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários