Lembrando outras terríveis doenças infecciosas

A tuberculose é, ainda hoje, uma das doenças infeciosas mais devastadoras. Bryson, no livro O corpo, um guia para ocupantes, lembra que nos anos 30 do século XX era quase uma sentença de morte, embora alguns doentes ainda vivessem muito tempo depois de estarem infectados. Era, para mais, uma doença dolorosa em que “o único alívio”, diz Bryson, citando Lewis Thomas, “era um fenómeno curioso perto do fim, conhecido como spes phthysica, em que o paciente ficava subitamente optimista e esperançoso, até levemente eufórico. Era o pior dos sinais”, “significava que a morte estava próxima.”

A reacção social à tuberculose no século XX, como acontece sempre, infelizmente, era muitas vezes resultado de uma mistura entre factos, medicina e puro imaginário falso. Daí, a existência de respostas hospitalares por vezes bem estranhas. Quase sempre os doentes nos sanatórios eram colocados em puro descanso; porém, noutras instituições, como no sanatório Frimley, em Inglaterra, forneciam “picaretas aos pacientes e obrigava-nos a trabalhos forçados duros e inúteis, na convicção de que isso fortaleceria os pulmões doentes.” Mas o mais habitual era, de facto, o inverso: sanatórios que isolavam, e praticamente imobilizavam, o doente, tanto a nível físico como a nível intelectual e até emocional. Em o Corpo, Guia para Ocupantescita-se um testemunho de Betty MacDonald, que relatava os seus próprios dias num sanatório, descrevendo que os “pacientes não podiam falar ou rir desnecessariamente, nem cantar”. Tinham ordens explícitas “para ficarem deitados, perfeitamente imóveis, e não podiam inclinar-se nem esticar o braço para pegar em qualquer coisa.” Imobilização intelectual e afectiva, sim, isso mesmo.
Nestes tempos feiosos, dois versos:

“Madrugarei para subornar o próximo dia,
Para que seja bondoso connosco.”
Yehuda Amijai

ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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