Pequenas notas, pequenas histórias

 

1. Europa, século XIX

“O despotismo expulso dos castelos refugiou-se nos escritórios”, diz um relatório do século XIX.
Na história da Europa do século XIX fala-se ainda de pequenos limpa-chaminés, contratados a partir dos quatro anos, dos quais se aproveitava a pequena estatura – a sua grande qualidade. Esses pequenos limpa-chaminés eram “mais baratos que uma vassoura”, diz Jean Duché, um historiador. Carlyle, cinicamente diz que o arsénico atingiria o mesmo objectivo, mas o excessivo trabalho faz o mesmo retirando o lucro possível no percurso.
Em 1842 uma lei proíbe os rapazes com menos de dez anos de trabalharem numa mina.

2. Natureza e técnica

A máquina para caçar animais selvagens fica encravada nos ramos mais espessos da densa floresta.

Um homem com um machado vai lá e corta os ramos mais espessos. A máquina foi libertada. Alguém grita de alegria. Não pode ser a máquina, pois ela não foi feita para isso. Quem grita então, quem está assim tão alegre com a libertação da máquina?

Impossível saber. De qualquer maneira, a floresta densa tem, noutros sítios, outros ramos espessos que, pacientes, aguardam a passagem da máquina de caça. Para atacarem outra vez.

3. Verdade

Tendo de manhã acordado mesmo ao lado da Verdade, o homem, depois de abrir os olhos ligeiramente, diante daquele brilho intenso e violento, fechou-os de novo, e, depois, aos poucos, ficou sonolento, aborrecido e adormeceu.

4. A doença

Num tempo de epidemias e medos, num tempo sempre duro individualmente, a terrível frase de Heidegger: “A doença não é o distúrbio de um decurso biológico, mas um acontecer histórico do homem (…)”.

Faz parte da história habitual; não é um acidente, é uma etapa; terrível etapa.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários