Sobre as nuvens e os mitos

 

“Cavalo velho conhece o caminho”
Provérbio chinês

Sobre as nuvens e os mitos

Vejamos o que diz a etimologia; “Origem da palavra meteoro. Do grego meteoros, literalmente “o que está no ar, o que está por cima de nós”. O plural meteora era o termo genérico para tudo o que se observava no céu, como as nuvens, os ventos, o granizo, o arco-íris, os relâmpagos, etc.”

Daí o termo meteorologia, que não é apenas a previsão dos meteoros e da sua trajectória, mas sim a previsão de todos os acontecimentos que surgirão no ar. Em suma, tudo o que não está no chão diz respeito à meteorologia.

Podemos pensar assim numa meteorologia em que a trajectória dos aviões seria incluída. Descrever-se-iam nuvens, relâmpagos, ventos nefastos, mas também as muitas trajectórias dos aviões.

Curioso notar que a meteorologia – como a descrição de tudo o que está no ar e de tudo o que está acima de nós – já perdeu toda a potência religiosa inicial. A tudo o que está no ar ou acima de nós os antigos chamavam de divino.

Podemos assim pensar num antigo boletim meteorológico em que, a cada fim do dia, se falaria da disposição do divino: como seria previsível que os deuses, que estão no ar e acima de nós, se comportassem na próxima semana.

Essa seria, então, uma arte de profetas. E, de facto, os profetas foram substituídos por análises de tendências – que sintetizam muitos números complexos, médias e etc. – e por gráficos complicados.

Os antigos profetas, esses belos cavalos velhos, quase sempre cegos, viam imagens do futuro na cabeça. A sua cegueira permitia-lhes ver o que os outros não viam. A sua cegueira era, portanto, a sua fonte de força.

Agora, os profetas cegos são substituídos por instrumentos de ver muito longe e com muito pormenor. Cada profeta foi trocado por satélites, antenas estranhas e cem mil telescópios de grande potência. Da não visão passou-se para a visão do mais pequeno pormenor da realidade.

Aliás, é tal a potência de alguns desses telescópios que estes não vêem apenas pequenas coisas afastadas no espaço, vêem também coisas afastadas no tempo. Quebraram o mundo habitual da visão, que era o do espaço. Agora, com os grandes instrumentos científicos, vê-se o tempo.

Mas sim, o mais importante é isto: o que antes era religião, mito e imaginação está transformado em boletim meteorológico. Ganhámos ciência, mas perdemos qualquer coisa.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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