Sobre a beleza, dois clássicos

Dois Clássicos, um de cada lado

1Ovídio, poeta romano que nasceu em 43 ac. e terá morrido em 17/18 dc. Com Virgílio e Horácio, Ovídio forma o trio de luxo da poesia latina.

Escreveu a A arte da Amar, volumes sobre como conquistar uma mulher, como manter a amada, etc. Nada moralista, perverso até, o quanto baste.

Em Metamorfoses, uma das obras clássicas mais influentes, a que podemos aceder através da belíssima tradução de Paulo Farmhouse Alberto, na editora Cotovia, Ovídio, relatando a beleza de um rapaz, escreve:
“Nada do que eu via nele se poderia considerar humano.”

E, um pouco mais à frente, surgem estes versos impressionantes:
“Mal me apercebi disto, digo aos homens: Não sei que deus
habita neste corpo, mas neste corpo algum deus habita.”
O belo como aquilo que passado um limite se torna não-humano. Uma outra forma de crueldade, eu diria: a extrema beleza.

2Do outro lado Chuang Tse, um dos pensadores mais influentes do Oriente. São dele alguns dos textos fundadores do taoísmo. Escreve Chuang Tse em “Capítulos interiores”:

“Mao Chiang e Li Ching eram consideradas belas pelos homens. Mas se os peixes as vissem, mergulhariam até ao fundo do rio. Se os pássaros as vissem, voariam para longe. Se os veados as vissem, fugiriam para longe. Destes quatro quem reconhece a verdadeira beleza?”

A beleza como algo que pode ser analisado e compreendido por peixes, pássaros, veados e homens. Susto e paixão, consequências da beleza; assombro, desejo ou mera contemplação como acções ou reacções de humanos e animais, elementos bem terrenos.

Os homens na cidade, os veados na floresta, os peixes na água e os pássaros no ar. O que é belo não pertence ao céu ou ao divino, mas aos elementos bem concretos da natureza. E estes não estão de acordo entre si.

 

Poemas do Oriente: Susto

Não é fácil esquecer a liberdade.

Peixe desviado ontem do mar para a mesa. 

Move-se ainda.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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