Sobre a presença e a ausência

 

“A Presença é a única Deusa que adoro”
(extraordinária síntese de Goethe, numa conversa com Friederike Brun, em 1795 e que dá título ao primeiro capítulo do já quase clássico livro de Pierre Hadot (1922-2010), “Não te esqueças de viver”, edição da Relógio de Água.)

Sobre a presença e a ausência

1Adorar a presença, fazer vénias a essa energia que está por completo na acção que se exige agora mesmo no espaço. Ou na inacção. Assim se aconselha em muitas religiões do Oriente.
O fundamental: distinguir a presença da ausência como o ouro do pó.
 

2Porém, nada do que está ausente se esquece de mim. Tudo exige a minha atenção.
Os dias já passados e as expectativas, eis as duas grandes ausências. Dois ausentes com íman em todo o corpo, sempre num sussurro: dá-me a atenção, olha para mim, fala comigo.
 

3Cego, surdo e mudo? Os três macaquinhos, os velhos macaquinhos que nunca envelhecem.
Cego, surdo e mudo? Sim, mas para quem? Para o que está ausente.
Linguagem, visão e audição, sim. Mas para quem, para o quê? Para o que está presente.
 

4Mãos à frente dos olhos dos ouvidos e da boca. O que resta? Isso mesmo: mãos, dedos.
Para quê? Para tocar. No quê? No presente.
Definição de presente: aquilo em que posso tocar.
Definição de ausente: aquilo em que não posso tocar.
 

5Pensar por isso, é estar ausente, estar fora da presença.
É difícil tocar naquilo em que estou a pensar. Posso tocar na minha testa, na minha nuca, no alto do meu crânio, mas não posso tocar nos meus pensamentos.
Os pensamentos poderiam por isso ter o nome de Os Intocáveis.
 

6As mãos como os sensores do presente. Mesmo o que está afastado de mim, um metro apenas, está ausente. Só ficará presente quando se aproximar um metro e me tocar (ou por mim se tocado).
O tacto como o sentido quase religioso do presente, o sentido que distingue o presente do ausente. Não a prova dos nove – mas dos dez, dez dedos.
 

7Imaginar uma personagem apaixonadíssima que quer tocar nos pensamentos da sua amada, aquilo que nela lhe foge.
E, doido de ciúmes, quer ter nas mãos o pensamento da sua amada, aquilo que para ele é inacessível.
E, doido de ciúmes, abre a cabeça da sua amada, quer pôr os dedos no que ela estava a pensar.
Mas não consegue, não consegue, não consegue.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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