Acontecimentos, leis, pálpebras

 

“Um animal com uma só perna inveja o animal que tem muitas pernas. O animal de muitas pernas inveja a serpente. A serpente inveja o vento. O vento inveja o olho. O olho inveja a rapidez do coração e da mente.”
do livro de Chuang Tsu

Sobre as nuvens e os mitos

VO olho e a aparente velocidade máxima no espaço, vai e já veio, uma flecha que volta ao arco de onde saiu no mesmo instante em que parte.
Parte e chega ao mesmo tempo, eis o olhar. O olho emite e recebe. O emissor e o receptor são o mesmo e ao mesmo tempo. Mas algo acontece. Ver é acontecer algo parecendo que nada acontece.

A velocidade da flecha da luz e do olhar. É necessário medir a velocidade do que é imediato, a velocidade do que não tem intervalo. Aquilo que acontece e não dura, como é que acontece? Um acontecimento que não tem tempo onde pouse os pés.

Mas na mente sim e no coração, o que se sente e o que se pensa, aí sim: a velocidade mais veloz.

“O vento inveja o olho. O olho inveja a rapidez do coração e da mente.”

E talvez não seja apenas uma questão de velocidade. Mas também de lucidez. A coração e a mente percebem melhor o mundo do que o olho.
 

Um conto breve

Numa aldeia, os homens não têm pálpebras.
Os olhos estão sempre abertos como mochos.
Estão cheios de sono, os homens sem pálpebras.
Não dormem e por isso ficam irritados. Matam quem está ali perto: pai, mãe, irmãos. Depois suicidam-se. A sua violência só pode acabar assim.
Neste gesto começou a maldade: quem tirou as pálpebras aos homens?
É preciso que eles durmam.
 

Poemas do Oriente: Som do sino num certo sábado à tarde

O sino tem som guardado. 
E é a tua mão que o liberta como a um animal
de dentro de uma jaula.
Mas só o toque certo da mão no sino
tem esse efeito.
Som, combinação de algarismos
como na fechadura de um cofre.
Biliões de combinações possíveis,
mas só uma, só uma,
só uma liberta o animal certo.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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