Sobre o jardim

 

Sobre o jardim

O jardineiro é um astrónomo que em vez de olhar para cima olha para baixo e isto parece-me uma definição prática da coisa. O jardineiro recebe ordens dos patrões, se os tiver, e dos astros – os mais altos e antigos emissores de luz.

Se fores pintor, o jardim é cor. Verde no centro, aqui mais escuro, mais claro ali, castanho da terra – um castanho que varia tanto – e árvores.

Se alguém for senhor da arte dos perfumes ou da gastronomia, o jardim avançará para ser aquilo que a terra produz e é táctil e tem sabor.

O que é a ópera para a arte – ópera que tem lá dentro tudo: canto, música, teatro, dança, literatura e etc. – é o jardim para o espaço da cidade. O jardim, pois, como obra de arte completa: é feito para todos os sentidos do corpo.

“De mais nada fala o Jardineiro, se não do andamento dos astros, das estações, dos corpos estelares e dos corpos verdes e das suas conjugações.”
Maria velho da Costa

 

Portas, entrada

Pensar numa casa no Oriente feita de portas. Talvez seja isso a definição de um labirinto: no caminho tudo são portas; tudo, pois, são entradas decisivas: um passo para a frente e estamos noutro lado, noutro mundo. Cuidado com o passo que dás!

Uma porta é um cruzamento. Se está fechada impede a entrada ou exige uma acção. A porta fechada como manifestação de pouca familiaridade e, ao mesmo tempo, como pedido de um movimento. A porta aberta, pelo contrário, como uma manifestação de confiança. A porta aberta diz: confio em ti, podes avançar mantendo o movimento uniformemente leve.

Como entrar no novo ano no Ocidente? Com o movimento uniformemente leve que as portas abertas do Oriente sugerem.

 

Poemas do Oriente: Comer, fazer a barba, reflectir

Arroz na taça, costas curvadas,
paus rápidos, enchem-se, esvaziam.
Taça antes cheia de arroz, agora brilha.
Vês o fundo, vês-te ao espelho.
É preciso comer, sem isso não entendes nada.
Fazes a barba frente à taça de arroz vazia, pendurada com a inclinação certa.
Podes fechar os olhos, não te cortas.
Há quem diga que nem lâminas
são necessárias.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários