A banalidade

Vivemos num mundo de banalidades. Assistimos tantas vezes às coisas e à sua própria repetição que mesmo a beleza e o horror acabaram também por se banalizar. Hoje é banal ver na televisão uma criança a morrer de fome, como é banal receber a notícia de que o político X é corrupto.

A quantidade de informação sobre tudo e sobre todos banalizou, definitivamente, qualquer acontecimento. O que é mais interessante neste fenómeno é o facto da banalização criar uma enorme distância entre o sujeito da informação e o sujeito que a recebe.

Tudo nos aparece dotado de uma estranha aura de irrealidade, como se as imagens que estamos a ver nunca tivessem acontecido ou aconteçam num planeta distante ao qual não pertencemos. O horror é mais mediático que a beleza e por isso a insensibilidade vai ganhando terreno em nós. Hoje Procusto é rei.

Explico: Procusto era um ladrão que prendia as suas vítimas a uma cama e depois lhes esticava os membros quando não eram suficientemente grandes ou os cortava quando excediam os limites do espaço que lhes era destinado. É o símbolo antigo da banalização, da redução a uma medida convencional, da tirania da mediocridade contra os que excedem ou não preenchem os critérios preconcebidos. Na idade do banal nada nos toca realmente. Nem o bem nem o mal. E a resposta não é o pensamento, como queria Arendt. Na verdade, a resposta já não existe.

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