Muralha, Bárbaros e Portas

 

Muralha, Bárbaros e Portas

 

1Há uma parábola de Kafka que conta que, num certo império, quiseram construir uma muralha à volta de todo o país para impedir que os bárbaros entrassem. A parábola de Kafka conta que a construção demorou tanto tempo que, quando terminou, os bárbaros já estavam lá dentro e agora, com a indestrutível muralha à volta, já não conseguiam sair.

A parábola não continua, mas poderíamos pensar que o passo seguinte, caricato, seria o império começar a derrubar o muro construído para que os bárbaros pudessem finalmente ser expulsos. Os mesmos operários que haviam construído o muro eram agora contratados para o deitar abaixo. Ou então os filhos dos operários que haviam construído o muro eram agora contratados para o deitar abaixo. Muitas vezes isto: gerações sucedendo-se, uma fazendo o contrário do que fez a outra.

2Em Itália há um único santo que não fez milagres. Era um porteiro que foi feito santo. Ele só abria portas. Era porteiro de uma escola, mas abria portas com tanta alegria que foi feito santo. Abrir as portas com alegria. Uma bela síntese.

Quantas portas já abriste com alegria? Eis uma pergunta que deve ser feita no último momento. Antes das últimas palavras de um moribundo.

 

Poemas do Oriente: A amizade

Todo atento ao mais mínimo gesto do outro.
Mas atenção inconsciente, uma forma concreta e
humana de substituir o ar.
O copo que o cotovelo distraído derruba
apanhado ainda no início da queda pelo amigo que pensava noutro assunto.
Ou talvez afinal o amigo contasse os deuses
de noite visíveis no céu
e o movimento evitando a queda
tenha sido um aceno útil para cima;
ritual e oração substituídos num gesto
pelo velho instinto.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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