O Exército – uma ficção

 

O Exército – uma ficção

 

Num país longínquo, uma menina avança em bicos de pés a dançar uma música imaginária que leva na cabeça e, sem o notar, os seus pés vão apagando os traços da fronteira guardada, há séculos, por canhões pesados. Em bicos de pés ninguém ouve nem detecta. Apaga a fronteira de forma rápida, sem ninguém o perceber, e o exército que guardava a fronteira perde-se porque já não há fronteira. Onde é que ela estava? Ali, dizem uns. Mais à frente, dizem outros. E falavam da fronteira, não da bailarina.

Sem a fronteira, que era a referência, os soldados ficaram perdidos.

O exército de milhões de soldados pede, então, auxílio porque está perdido numa floresta e começa a ter medo. São muitos homens armados e cheios de equipamento militar, mas não sabem onde estão e por isso começam a gritar, com medo.

As mães ouvem porque as mães estão sempre atentas. Saem de casa a correr, muitas mães espalhadas pelo país inteiro, e vão socorrer os filhos que estão perdidos na floresta.

Os meninos, armados e adultos, estão já a chorar quando as mães chegam perto. Elas agarram com força na mão dos seus filhos e é assim que o exército é reencontrado e volta a casa. Cada soldado puxado pela mão da sua mãe, à força. Agora já não sais daqui, de ao pé de mim, dizem elas, como se eles tivessem saído de casa para brincar, sem autorização materna.

 

Poemas do Oriente: Dormir

Dormir o mais perto do solo,
dormir não é levitação artificial.
Entre a terra onde descansam muitos mortos amigos
e o céu onde deuses bem acordados velam por nós,
aí, no meio, no caminho,
não há espaço para algo ainda mortal.
Evitar a cama alta, a elevação falsa.
Dormir é lá em baixo, onde tudo começa a existir,
as árvores, por exemplo,
e também a memória.
Onde fazes a cama? O mais longe dos deuses,
o mais perto dos mortos.
Uma prova de humildade, dirás.
Dormir o mais perto do solo.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES
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