O Centro

 

Onde está?

Os paradoxos de Hui Sui:
“Conheço o centro do universo: está ao norte do extremo norte (Yan) e está ao sul do extremo sul (Yue).”

 
É preciso, pois, encontrar o centro nas extremidades. Vais a um limite e ele está lá e vais ao outro limite, do outro lado, e ele está lá. Mas não se trata de dar a volta a uma esfera. Trata-se, sim, de um mundo plano em que só há um centro. E sim: ele está ao mesmo tempo em dois lados opostos.

Como se fosse um centro perturbado. Um centro que é dois, meio demente. Um centro que não está ali perto, que exige esforço para ser alcançado. Está no extremo, num sítio pouco acessível.

Um centro que baralha o caminhante. Uns dizem que está nas suas costas, outros dizem que está à sua frente. Quem mente? Ninguém. Todos dizem a verdade.

Como pode o centro estar nas minhas costas e à minha frente?

Hui Sui conhece o centro do universo: “está ao norte do extremo norte e está ao sul do extremo sul”. O centro está para além do norte e para além do sul. Nunca o alcanças. Se vires o centro ao longe já é bom, já é uma façanha. Nunca terás os pés no centro, nunca nele tocarás.

O que se exige ao humano, já que é impossível alcançar o centro do universo? Ir até ao extremo norte de si próprio, ir ao extremo sul de si próprio.

E sim, pensar o centro como algo a que se chega não geograficamente, mas por via do tempo, das experiências que se tem ao longo do tempo. Cada experiência importante aproxima-me do centro.

O centro que não está no espaço, mas no tempo.

Se o tempo tivesse norte e sul, o centro de uma vida estaria para lá do extremo norte do tempo e para lá do extremo sul do tempo.

Pensar no centro de uma biografia como se pensa no centro de uma circunferência. Um momento fundamental que coloca todos os outros momentos e experiências à mesma distância.

Onde está o centro da tua biografia? Já passou? Está a chegar?
 

Poemas do Oriente: Acordar

Papel dobrado sete vezes é mais forte,
guarda segredos, tapa.
Dormir é assim.
Acordar como animal que aceita o tempo
que as coisas demoram;
não ir de réptil deitado a bípede humano
num segundo.
Todo o acordar é desdobrar,
Lentamente prometes um tranquilo segredo.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

Subscrever
Notifique-me de
guest
1 Comentário
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários
Ana Oliveira
Ana Oliveira
11 Dez 2019 18:09

O centro está em toda a parte e em parte alguma