Os colapsos, os acidentes

 

Os colapsos, os acidentes

Pensar numa fábrica que produz acidentes intencionalmente; que planeia acidentes, constrói acidentes como alguns constroem um edifício. Parece absurdo?

Paul Virilio fala da “ industrialização do acidente”: os testes aos carros – tendo por base o crash e a capacidade de resistência a esse choque e impacto – são disso bom exemplo. Um bom carro é o que resiste ao impacto violento que, em princípio, poderá até nunca suceder.

A partir daqui podemos pensar numa comunidade que acredite que a sociedade avança devido aos acidentes e não ao progresso contínuo. Trata-se de acreditar no avanço por saltos, mas não saltos sobre o solo firme e controlado, avanço, sim, por quedas: o mundo avança de queda em queda, de acidente em acidente, de colapso em colapso.

A sociedade mais atrasada seria, nesse sentido, a que tivesse tido menos acidentes, menos colapsos. A mais estável seria a mais atrasada.

Associar o progresso, por exemplo, à reacção de uma comunidade depois de uma queda ou colapso. E daqui surge uma definição possível. O que é o progresso de uma comunidade: é o que uma sociedade faz depois da queda.

E o que é o progresso individual, o progresso biográfico?

É também o que um indivíduo fez depois de uma queda, de um acidente, de um colapso qualquer na sua vida. Progresso: a forma como te levantas e não a forma como andas. Não se trata, pois, de uma questão de velocidade, mas de resistência.

Estamos aqui para avançar, não para resistir. Estamos aqui para resistir, não para avançar. Duas opções.

Cada colapso obriga a uma mudança de estratégia, a uma mudança de intensidade, direcção e sentido. Caminhas de maneira diferente e para um sítio diferente depois de um simples alvoroço no meio da tua vida.

Poemas do Oriente: Habitar

Passa suavemente de um compartimento
a outro.
Dizem que não se movimenta, ausenta-se,
marca presença.
Como se não existisse espaço no meio.
Ela estava ali, agora aqui.
Como se chama esta forma de andar,
apenas com destino e dois verbos:
desaparecer, aparecer?
Não caminha, chega.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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