Sobre a respiração

 

“A poesia, irónica e soberba, ri das vaidades do mundo.”
Li Bai (traduzido por António Graça de Abreu)

Sobre a respiração

Exercícios respiratórios do Zhuangzi:
“Soprar e respirar, expirar e inspirar, expelir o ar usado e absorver o ar fresco, espreguiçar-se à maneira do urso ou do pássaro que estende as asas, tudo isso não visa senão a longevidade.”.

A respiração é um acto animal, não um acto humano. Pensar e reflectir e escrever são actos humanos. Respirar, acto essencial, involuntário: podes decidir não respirar, tapar a boca – mas no início do início não decidiste respirar. Alguém ou algo – corpo, os genes, o que for, decidiu por ti: tu respiras.

Pensar numa personagem que acorda e diz: eu hoje decidi: vou respirar. Um louco, sem dúvida. Não és suficientemente poderoso para decidir uma coisa dessas.

Claro que se poderá dizer: eu hoje vou respirar ar puro, vou para a montanha. Ou: hoje vou respirar o ar da floresta, ou, ou e ou. Mas sim: ninguém pode decidir sobre o verbo respirar. O verbo respirar é involuntário, é um verbo que não te pertence.

E sim, voltar ao início: respirar como verbo animal.

Daí estas indicações animalescas de Zhuangzi. Respirar como um urso ou um pássaro que estende as asas.

Respirar é um acto animal. Ainda bem, digo eu.

Poemas do Oriente: Uma refeição

Madeira, pequenos paus levando à boca os alimentos,
nada de metal.
Podes falar de pormenores, troca por troca
– metal por madeira –
mas claro que não.
Nenhum metal entra no espaço inaugurado
por dois amigos
que se sentam frente a frente, o óbvio.
Nenhuma faca na mesa, repara,
nenhuma ameaça material, paisagem calma e natural,
mesmo que em comprimento e largura mínimos.
(Tudo é paisagem, o mais pequeno dos espaços,
se lhe deres atenção.)
Na paisagem não entra tanque,
na mesa nenhum metal. A tranquilidade do mundo
começa
na tua mesa.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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