Entre Oriente e Ocidente

 

O escritor Jalá Rûmi escreve: “Todas as rosas são vítimas do inverno.” E o chinês Chao Yong decidiu enfrentar as flores que pareciam rir dele:
“Ó flores encantadoras, não se riam ao verem a minha cabeça branca.
A minha cabeça branca já viu um sem-número de belas flores.”

No entanto, nem sempre a natureza é tão rápida – certas árvores já viram muitas gerações sucessivas de cabeças brancas e as montanhas nem se fala.

A árvore que viu o meu bisavô nascer e a montanha que já estava lá muito antes da outra velha árvore ter sido derrubada, exactamente no mesmo sítio desta velha árvore.

Uma referência no espaço, mas não só – a montanha como aquilo que define o tempo. Uma concentração de espaço e matéria que é, no fundo, o tempo a mostrar-se visível.

Que horas são? Pergunta de um homem ou pergunta de um planeta? Certos geólogos vêem o tempo (as horas) da Terra pelas montanhas – nas montanhas se vêem as horas longas, isto é, os séculos, os milénios e milénios.

Duas opções à escala de uma vida. Ver o tempo no relógio, na máquina que os homens fizeram com as suas mãos, ou ver o tempo pela alteração da árvore ou do animal.

O animal próximo, doméstico, como um organismo-relógio, um relógio afectivo a que damos mão e comida.
 

Poemas do Oriente: No Santuário

Sem palavras, o som de um pequeno bosque
num santuário de Kyoto.
Estamos na vida normal como em plena festa, olhos
e ouvidos cheios.
Uma forma de parar as pernas é ser mudo,
outra ser cego; nada escutar, uma última opção.
Repara que, no meio da algazarra,
o silêncio é toque de sino – o que se destaca
na paisagem.
Ao longe, à distância em que quatro homens
são apenas quatro pontos,
um olhar experiente e antigo distingue o surdo
dos outros.
O surdo é o que está sozinho, o que observa mais,
aquele que guia.
No meio da feira do dia e do mundo,
o calado é o que, durante um ano,
apenas uma vez grita: é ali!
E sim, é ali. Foi ele quem
encontrou.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

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Afrânio Garcia
Afrânio Garcia
8 Nov 2019 05:47

Bela poesia. Parabéns, Gonçalo M. Tavares.