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Quando me lembro de Macau, não posso deixar de pensar no “mantra” que nesse tempo ouvia repetidamente: em Macau a Lei Básica garante uma forma de governação a que se designou um País dois sistemas. Se este princípio governa efectivamente Macau (e Hong Kong), ou não, poderá ser uma questão, mas não é certamente o tema deste artigo. A questão que quero relevar é a aplicação reducionista do termo “sistema”, entendido apenas à luz da economia. Mas na verdade Macau baseia-se num conceito ligeiramente diferente – uma cidade, dois sistemas. Em Macau existem dois sistemas desde sempre, o português e o chinês. Antes da reintegração o sistema português predominava (até certo ponto, como os historiadores muito bem sabem); depois da reintegração o sistema chinês passou a impor-se em cada esquina. No entanto estes dois sistemas funcionavam, e funcionam, por si próprios. Quem tenha estudado a teoria de sistemas sabem que o propósito de cada um deles é a sua própria sobrevivência.
Quando lemos testemunhos, ou entrevistas, de pessoas que viveram largas temporadas em Macau (como o caso do Padre Manuel Teixeira), verificamos que todos admitem um facto fundamental: Macau tem sido o laboratório de uma experiência falhada, uma experiência que pretendia estabelecer a comunicação entre dois sistemas, mas que, a um nível profundo, não resultou. Como já afirmei muitas vezes nos meus artigos, e em entrevistas que dei, a visão de Macau como uma “mistura” do Ocidente e do Oriente é uma ideia metafísica, e não a constatação de algo que efectivamente exista. Brian Pempus afirmava num artigo que publicou recentemente em cardplyer.com: “Na semana passada, Steve Wynn, durante a sua intervenção numa conferência, onde se analisavam os resultados do terceiro trimestre da empresa que dirige, deu algumas alfinetadas no Governo de Macau, a propósito dos resultados que se fazem sentir na indústria do jogo. Prevê-se que a Wynn Resorts inaugure um novo casino em Março. Ao longo dos primeiros nove meses do ano, as receitas do jogo em Macau baixaram 36%, comparando com o mesmo período do ano anterior. As receitas do jogo em 2014 atingiram os 44 mil milhões de dólares. As receitas do jogo têm vindo a decrescer sistematicamente ao longo dos últimos 16 meses. “Ninguém pode dizer ao certo o que nos espera daqui em diante,” declarou Wynn. “O que faz com que o processo de planeamento e ajustamento seja quase místico” (20 de Outubro de 2015). É isso Sr. Wynn, quase que pôs o dedo na ferida: o processo de ajustamento em Macau não é “quase místico”, é místico tout court. E isto deve-se à natureza do encontro entre as duas culturas, demasiado diferentes uma da outra para que consigam comunicar a um nível mais profundo.
Atrás referi-me ao Padre, e historiador, Manuel Teixeira. Numa entrevista que deu em 1982, (publicada em Itinerário Vol. VI 1, pags. 25-42) deixou esta ideia bem clara: “Todos os macaenses de origem portuguesa falam chinês, mas não o conseguem ler. O que os torna uma comunidade mais ou menos à parte. Os chineses não precisam de falar português. São comerciantes e só se preocupam com os seus negócios. A língua oficial é o português, mas a primeira língua é o chinês e a segunda o inglês, e não o português. O português é só a terceira língua. Muitos chineses querem aprender inglês. Existem muitas escolas onde o podem fazer, mas só existem duas ou três escolas portuguesas. Apenas um número muito reduzido dos 400.000 habitantes de Macau frequentam escolas portuguesas”. Esta é a realidade, Macau é a mistura de comunidades separadas e que assim irão permanecer até que uma delas desapareça (e sabemos qual das duas será). Aceitemos este facto “místico” e encaremos Macau como é, e não como a “Literatura” gostaria que fosse.

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