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Nos últimos dias vividos em Roma, cheios de agitação e ansiedade, deixo-me frequentemente levar pelas minhas memórias de Macau. Como costumo afirmar Macau é, e será sempre, parte de mim. Não sei indicar ao certo os benefícios que Macau trouxe à minha vida, mas não há dúvida que esta cidade me tornou mais maduro, menos naive, se me permitem a expressão. Existe um Aurelio Porfiri antes de Macau e um Aurelio Porfiri depois de Macau. Os dois têm uma identidade comum, mas estão separados pela atitude: a mesma pessoa mudou, de certa forma, a sua weltanschauung, a sua forma de olhar o mundo. É como se Macau tivesse abalado o meu âmago e tivesse contribuído para uma espécie de depuração dolorosa daquilo que sou. Depuração que, por mais estranho que pareça, não me tornou mais puro, pôs sim em causa parte da minha personalidade que, mais cedo ou mais tarde, talvez precisasse de sofrer umas sacudidelas.
Como é que isto se explica? Em artigos anteriores tive oportunidade de demonstrar que olho Macau a partir de uma abordagem sistémica. Não considero os problemas da cidade de forma individual, mas sim como parte de um sistema. Passo a dar um pequeno exemplo do que acabo de dizer. Quando estava em Macau costumava queixar-me da fraca qualidade dos directores de coros, sentia a falta de alguém a quem pudesse chamar “colega”. Claro que conhecia as histórias destas pessoas, porque é que tinham conseguido lugares para os quais não estavam qualificadas, a julgar pelas (inexistentes) provas dadas. Mas estava errado, esta não é a forma de abordar o problema. Quer dizer, do ponto de vista emocional é compreensível ficarmos perturbados quando vemos o potencial dos jovens ser desperdiçado apenas para favorecer alguns interesses “locais”. Mas, mais uma vez, só podemos compreender o quadro geral quando olhamos para Macau como uma entidade, um sistema, como já foi muitas vezes referido. Tenho reflectido muito sobre os valores que estão em causa em Macau e, evidentemente, passa tudo pela educação, pela música, a arte, a economia e por aí fora, e uma reflexão honesta sobre estes valores, é a weltanschauung de Macau. No entanto, para ser franco, é preciso dizer que Macau não tem uma visão do mundo, Macau olha mais para dentro do que para fora. Definimos se um sistema é aberto ou fechado a partir do grau de influência que recebe do meio ambiente. Neste caso, será que Macau é influenciado pelo ambiente (cultura universal)? Culturalmente, diria que não. Macau tenta manter a estabilidade do status quo local, que prospera a partir das receitas do jogo, sem que exista uma estratégia séria para implementar verdadeiras mudanças e proporcionar às gerações mais jovens uma alternativa à indústria do jogo. Cada vez mais a China continental pressiona Macau neste sentido (sobretudo do ponto de vista cultural, algo que era previsível), mas nos vários anos que passei em Macau nunca percebi qual era a estratégia cultural do continente para a cidade e para o futuro das suas gentes, para além de enviar centenas de jogadores estridentes que enchem os cofres com dinheiro “fresco”. Macau é apenas o parque de diversões da China. Mas será que a brilhante juventude de Macau não merece um futuro melhor?

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