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No último artigo falei sobre a necessidade de encararmos Macau como um sistema. No fundo, tudo se organiza em sistemas, o nosso corpo, as cidades, as religiões, as nações. Cada sistema é edificado em trono de certos valores, com a intenção de defender a sua própria identidade. Estes valores e identidades podem sofrer alterações ou modificações, mas existe uma espécie de linha vermelha que está (ou deveria estar) sempre presente.
Tomemos como exemplo a Revolução Francesa, constituiu certamente um ataque ao Ancien Régime, à sociedade tradicional que, até à data, tinha modelado a França e a Europa. Mas, mesmo as palavras de ordem revolucionárias, liberté, egalité, fraternité, têm ressonância nas raízes cristãs da sociedade.
Pode-se tentar extirpar as raízes de uma identidade, mas existe algo no sistema que impede uma total rejeição dos valores fundamentais. Este ponto de vista é interessante, se pensarmos no caso de Macau. Qual é o tipo de sistema que o constitui? Será um sistema aberto, ou um sistema fechado?
Certamente que não é aberto, tal como não o é na China continental, embora exista uma forte tendência para uma abertura ao exterior. Essa abertura seria óptima, se pudesse verdadeiramente contribuir para um aperfeiçoamento e um desenvolvimento do sistema. Para entendermos melhor o que foi dito, devemos compreender os valores que vigoram e moldam o sistema tal como ele é.
No caso da Revolução Francesa, já tínhamos mencionado a luta entre a identidade cristã e o Iluminismo, no caso dos EUA, a delimitação das fronteiras, a luta pela independência e, outros acontecimentos históricos, moldaram a Nação. No caso da China a situação é um pouco mais complicada, porque o actual sistema nasceu em oposição à cultura chinesa tradicional, entendido como um novo começo. Mas, como vimos no caso da Revolução Francesa, os antigos costumes acabam por vir à superfície, de uma maneira ou de outra.
Quanto a Macau, bom… quanto a este assunto, sempre tive problemas em entender a verdadeira identidade de Macau. Para compreendermos o “sistema Macau” temos de tentar identificar o melhor possível o tipo de identidade que dá forma a Macau, de modo a podermos reconhecer quais os valores que vigoram e que fazem o sistema funcionar. No caso de Macau, diria que a identidade portuguesa e a identidade chinesa se deveriam ter misturado de forma a criar uma nova identidade, a macaense. Mas, como já disse muitas vezes, não foi isto que realmente aconteceu.
Diria antes, e de forma mais correcta segundo o meu ponto de vista, que, antes do séc. XVI, Macau era uma aldeia chinesa (na verdade, várias) e tinha essa identidade. Com a chegada dos portugueses, houve uma mudança e uma tentativa de impor uma identidade cultural lusófona, tentativa que resultou, mas apenas em parte. Nas últimas décadas, prevalece a tentativa de restituir a Macau a identidade cultural chinesa, algo que é compreensível, já que a maioria da população é chinesa. Mas qual é a nova identidade cultural chinesa? Como é que funciona? Que valores transmite? Para compreendermos o “sistema Macau” é urgente encontrar respostas para estas questões pertinentes.

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