PARTILHAR

O atraso é uma sensação que me persegue mais vezes do que gostaria. Não se trata de um atraso real, aquele que faz com que se lute contra os minutos. É antes uma espécie de atraso na própria existência, como se sentisse que, se tivesse chegado uns anos antes, poderia perceber melhor onde estou. E não só. Não vi Brel. Nem Piazzolla. E não vi Zeca. Foi tudo demasiado antes para mim. Quem já cá estava dirá o mesmo sobre o que não encontrou. Talvez.

Cheguei a Macau atrasada. Não tenho ponto de comparação. Nem sempre interessa o exercício do paralelismo, mas há momentos em que me faz falta. Não me emocionei numa noite de Dezembro. Não me fui embora com vontade de ficar. Não sei como era e há dias em que gostava de saber como é que isto tinha sido antes, bastante antes, por curiosidade antropológica e vontade estética. Cheguei tarde. Talvez. Talvez não.

No ano em que nasci, Portugal teve quatro governos. Uma confusão dos diabos. Mário Viegas era D. Lucas em O Rei das Berlengas. Elis Regina ainda cantava e foi a Portugal votar num festival da canção em que José Cid ficou em segundo lugar. Uns meses mais tarde, noutro registo, quase premonitório, aconteceu a primeira greve de jornalistas da rádio.

Lou Reed ia já no oitavo disco a solo. Nos Estados Unidos mandava Jimmy Carter, Roman Polanski andava metido em confusões e atravessava o Atlântico, e aparecia nas televisões a Dallas. Já havia algumas preocupações ambientais, mas poucas. Martin Scorsese fazia filmes e Woody Allen também. Não havia Google, nem YouTube, só bibliotecas e livros e vinis.

No ano em nasci, a liberdade no meu país era uma coisa recente: cabia nos dedos de uma mão e ainda sobrava um. As mulheres já tinham regressado aos vestidos, apesar de as calças ainda estarem na moda. Os óculos eram de massa, os comícios políticos eram muito animados e todas as famílias aprendiam a ser de qualquer coisa, de direita ou de esquerda, do centro talvez.

Cheguei atrasada ao ano em que nasci. Não me lembro nem da luta pela liberdade, nem da construção da liberdade pela qual se tinha lutado. Cheguei tarde e, por isso, tive de fazer o exercício que se impõe aos pouco pontuais: vai ler sobre o que não viveste, sem te esqueceres de viver pelo caminho.

Os livros ensinaram-me qualquer coisa. O Google encontra-me os factos, talvez certos, talvez não, do que ando à procura. O YouTube ajuda-me mais, com os concertos que eu não cheguei a ver. E o Brel canta, o Piazzola toca, o Zeca canta mais do que todos, porque canta mais vezes.

Li muitos textos esta semana. Vi alguns programas de televisão. Ouvi análises, corri biografias resumidas, passei os olhos com atenção por textos de opinião. Há sempre palavras-chave e chavões na morte. Chateou-me a falta de educação que inunda certos espaços virtuais, mas passei à frente e preferi ver as flores, as fotografias, o passado em que não vivi e que, de repente, me pareceu mais forte e mais terno, mas terrivelmente mais difícil.

Esta semana falou-se muito de liberdade. Aquela que era fresca quando nasci. E, por um minuto, muitos minutos, agora e amanhã também, soube-me bem ter chegado atrasada à vida do costume. Porque eu só sei ser livre, não sei ser de outra maneira, nem quero. Sim, (ainda) Soares.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here