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O ano de que está agora a pouco mais de um mês de findar é já considerado para muitos “um ano para esquecer”. Foi em 2016 que desapareceram alguns ícones da nossa era, casos de David Bowie, Prince, ou mais recentemente Leonard Cohen, e isto sem esquecer outros menos mediáticos ou já retirados, casos da também cantora Natalie Cole, ou do comediante Gene Wilder. Todos deixam saudades, e apesar de neste aspecto ter sido um ano especialmente triste, não foi muito diferente de todos os outros: as pessoas morrem. Facto.

Já num outro quadrante, o da política, o ano ficou marcado por uma mudança de paradigma que alguns temem ser “perigosa”, com a votação da saída do Reino Unido da União Europeia, vulgo “Brexit”, e com a eleição de Donald Trump como 45º presidente dos Estados Unidos. Há quem vá mesmo mais longe, e faça destes dois acontecimentos uma leitura fatalista, como se da chegada de dois dos cavaleiros do Apocalipse se tratasse, e com um terceiro a caminho – falo naturalmente de Marine Le Pen, mais que provável candidata da direita  às eleições presidenciais francesas do próximo. As comparações com a ascensão do Terceiro Reich e na Alemanha dos anos 30 do século XX são para alguns “inevitáveis”, e de tudo isto só acho engraçado que da História se tenham apreendido datas e factos, mas não se tenham retirado nenhumas conclusões.

A questão do Brexit foi empolada, tanto pelos media como pelos seus apoiantes, mas quem se opôs deu o seu contributo para que de um simples copo de água se levantasse um autêntico “tsunami”. Depois de todo o foguetório vindo de cada uma das partes, ficou agora mais claro que a saída dos britânicos da UE depende da vontade política, e o referendo serve apenas como argumento para os que defendem a ideia – mesmo que seja aqui um argumento de peso. A eleição de Donald Trump “deixou a América profundamente dividida”, recorrendo a um chavão recitado vezes sem conta nas últimas semanas. Quer dizer portanto que deixou a América como sempre esteve, e neste aspecto quer Trump, que outro qualquer, não acrescentam nem retiram nada.

Neste último particular, os maiores receios têm a ver com o discurso do empresário, que personifica aquela nova escola de ausência do pensamento que dá pelo nome de “desprezo pelo politicamente correcto”, ou numa palavra apenas, o populismo. Em Janeiro do próximo ano Trump vai ser empossado como presidente e não como “dono daquilo tudo”, e muitas das suas promessas delirantes, que causaram em alguns uma espécie de “transe” entusiástica são simplesmente inconcebíveis, pois de tudo o que de mau existe na América ou em qualquer outro estado de Direito há algo que está acima do próprio presidente: a lei. Para o bem e para o mal as coisas são mesmo assim, e aquilo que levou a que muitos considerassem a presidência de Obama “decepcionante” por este não ter trazido a “change” que prometeu, pode ser que agora os venha deixar aliviados.   

Ao contrário do que se possa pensar, este meu “optimismo” não se opõe ao pessimismo da generalidade, mas antes ao seu derrotismo. Dizer que o “Brexit” é “a vontade da maioria dos britânicos” é uma falácia, uma vez que pouco mais de um quarto destes votou nesse sentido, e como já é do domínio público, Trump obteve um número de votos inferior aos da sua adversária, e só venceu da mesma forma que em Portugal temos um Governo que obteve nas últimas eleições menos votos que o seu opositor directo: através da representatividade. E é aqui que muitos ralham e não têm razão, na casa onde falta não o pão, mas a vontade. A minoria descontente, composta por gente  desinformada, mesquinha, xenófoba, ignorante, chamem-lhes o que quiserem, foi simplesmente fazer a única coisa que estava ao seu alcance, e não recorreu a meios coercivos e violentos para o fazer – venceu por falta de comparência.

E se este ano foi mau, há quem já faça “por baixo” as suas previsões para 2017, e falando agora das tais presidenciais francesas, muitos já dão como certa a vitória de Le Pen e da extrema-direita, como se impedir a vontade da tal “minoria não esclarecida” fosse tão inevitável como a peste negra.  O derrotismo tem destas coisas, é contraproducente, da mesma forma que é patético pecar por omissão e mais tarde andar pelos cantos da casa a lamentar-se, enquanto se pergunta “porquê?!”. Então não sabem porquê? Também contribuíram para isso, então; afinal também viram, mas NÃO estavam lá.

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