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Saber que o mal vem sempre de mais longe do que pensamos e que nem sempre morre na emboscada que lhe lançámos.
René Char

Esta é a obra que todo o poeta gostava de poder reunir sem lhe arderem os dedos e secarem os olhos à medida que vai percorrendo o ciclo do tempo criativo com a gravidade dos que precisam de unir as pontas destes véus por vezes tão soltos, tão sós, tão perdidos, entre as multidões de opacidade vária em que o mundo se tornou, podendo fazer de um poeta, também, um ser em desintegração. Só que, ele tem esse fio de prumo no acento de todas as fórmulas por onde desliza, e em mistério e pensamento, reúne o que esse divino imanente que o habita o manda interpretar. Ao contrário da lixeira poemática dos dias em que se tornaram as referências, com actos isolados e “papéis bordados a tinta” sem nenhuma intimidade com a estrutura poética de uma vida, aqui, isso nunca era passível de ter acontecido. Char, abandonou os pragmatismos da vida comum  para interpretar um destino e fê-lo na singular e alquímica experiência de  um iniciado. Coisas que se não forem exactamente assim, jamais serão o que quer que seja que  valha a pena contemplar.  O poeta René Char não era outra coisa a não ser um  poeta. Não era um fazedor poemático isolado, e isso, só por si, é de um maravilhamento sem limites, nós, os que nos damos, não suportamos a acumulação de funções, nós, os que amamos , amamos sempre, e mais, a mesma coisa, aquela com que nos casámos nos dias felizes dos juramentos eternos.

Nenhuma leviandade, nenhum cansaço, nenhuma infidelidade entram no imenso espírito de um poeta, não pode viver com a fealdade de uma traição nem com uma permanente falta de atenção para consigo num esquecimento sem memória, pois que ele constrói e une todas as memórias e por vezes, a falta de rigor e o desconhecimento  dos outros face à sua,  sempre, e naturalmente, gentil pessoa, abrasa-o, pois que não sabe como encaminhar os outros  e não entende a distância que o mantém tão isolado. Sim, a Humanidade não é polida, nem sensível à sua existência neste mundo, muitas vezes mandam-no fazer coisas que ele só de ouvir se envergonha, pois não sabem, que o seu pacto é uma fera consciência que não sabe  transmitir numa linguagem imediata.  No entanto, há que viver, até para continuar fazendo a obra, viver é muito abstracto, e, se não houver uma causa, um amor, uma demanda… para que serve uma vida? Para que serve o prazer isolado dos dias sem um fio condutor de alguma eternidade?

Neste momento histórico vivemos uma interface programática de incentivo à criatividade, só que, as pessoas andam  na mansidão terrível dos regimes como se cumprissem pactos com eles, e, na profunda superfície de vidro vazio « Furor e  Mistério» não está, por que para estar, seria preciso uma natureza religiosa, uma espécie de êxtase perante o abismo daquilo que é o vazio e o desconhecido , era preciso, entretanto, que a palavra fosse uma lava de matéria ardente para ser desocultada:  nada disto nos dita nestes  dias dos frémitos do esvaziamento pelas explicações indevidas,  como se tudo fosse explicadamente  acessível e em tudo tivéssemos que orientar o pequeno mundo que vai sendo o global instante de um reconhecimento vário.

Se há uma« Homenagem e Fome» em verso livre numa destas páginas, ela transmite o mundo de Elliot junto daqueles ossos que se tornariam vida….- “Hão-de viver estes ossos?”- Aqui é uma  Mulher e não a Senhora de Elliot, toda semente para feras ansiosas, numa hora esteva de ossadas…. daquele homem que para melhor a adorar recuava indefinidamente….com esta sorte sabia então que a terra não iria morrer e a fome era só o tormento de uma espera.. ..- Perguntar-me-ão, do poético da  composição, pois que nada existe de mais poético que a carga de uma insuportável vontade   que não se rende ao espaço da diversão narrativa que retira a força da tenção.   Dar às pessoas uma dose articulada de resultados é adormecê-las, e ao manter a máxima inquietude, a linguagem,  é o puro exercício poético.

O amor que em tempo de consubstancialidade assume o integrar o outro é mais que possessividade, é a legenda de uma absorção  radical  que se deseja, e « Allégeance» é um fenómeno sonoro de longos mistérios a cumprir:

Dans les rues de la ville il y a mon amour, peut importe oú il va dans le temp divisé. Il n´est plus mon amour chacun peut lui parler.

il ne se souvient plus qui au juste l´aima et l´éclaire de loin pour qu´il ne tombe pas.

Nós que atravessamos tão sós os nossos instantes, que trabalhamos para as auroras como se as conhecêssemos, que ficamos  nos limbos das terras alheias, que não tendo chão, também perdemos o gosto de  andar, não estamos nos locais que outros deviam ocupar. Ou estamos? E se sim, por que não os ocupam?  E se estamos por que não fazemos  pontes? Toda esta mágoa…este tecer, e ler a beleza que aqui está, nos faz…não sei, prisioneiros, e depois não mais estaremos juntos sorrindo com o gosto dos dias nos nossos rostos….

Char, nesta bela recolha diz que o poeta vive na maldição, isto é, assume perigos perpétuos e renovados do mesmo modo que recusa, com os olhos abertos, aquilo que outros aceitam com os olhos fechados: o proveito de o ser. Passando por todos os graus solitários  de uma memória colectiva, da qual as regras do jogo o excluem.

Neste imenso brilhantismo incandescente faz a obra  cujo resultado é mais do que podemos suportar, e, no tempo das leves brisas estas Fúrias tão gentis revolvem a nossa natureza que deve estar disforme de tanta voz dissonante e matéria volátil, nós que agarrados às Barcas aguentamos os lemos, não nos atiramos à água por medo da fúria magnética. No fundo as sereias cantam…mas, quem as encanta são ainda os poetas que presos aos mastros continuam a misteriosa Viagem.  E agora que as correntes se foram nos silêncios dos cânticos, nos vazios dos mares,  talvez não se entenda por que se morre nas travessias das guerras que preparámos só  por não  sabermos compor. Sempre que deixamos os Ofícios dos Mistérios os mares tornam-se grandes sepulturas, e os nossos olhos, secam, para não ler o mapa de um mundo que  se liquefaz e se desfaz.

« Viver com semelhantes homens»  tenho tanta fome… durmo sob a canícula das provas. Viajei até à exaustão, a fronte sob o enxugadouro nodoso. Já não é a vontade elíptica da escrupulosa solidão… mostrai  os vossos desígnios e essa vasta abdicação do remorso!

Tanta gente!  São nossos irmãos.

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