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Que mundo é este? Que mundo é este que morde e nos aprisiona por entre raivas e tentáculos de febre? Para que serve um mundo assim? Um mundo onde Aleppo existe. Um mundo onde ditadores se juntam a ditadores para continuar guerras onde são os civis que mais sofrem. Que mundo é este que se desvia do prometido? Que se escurece entre negras emboscadas de princípios? Onde não há refúgio. Onde o refúgio é noutro país e nunca garantido, e não é equivalente de liberdade ou aceitação. Não falo do meu espanto. Não falo do que disfarço. Não falo das minhas asas quietas. Falo das mentiras. Do jogo de poderes. Falo do medo. Um medo que é de todos. Falo da insegurança do ser. De ser. Que mundo é este onde ser é equivalente a retraimento? Que mundo é este onde a tortura se tornou normal? Onde o tempo é indeciso e evita igualdades? Onde todos nos tornámos culpados de alguma coisa simplesmente pela cor da nossa pele? Que mundo é este que me alveja o peito com dor? Uma dor profunda, um gládio certeiro na existência. Que se escapa por entre dedos. Que mundo é este que nos puxa e onde nos puxamos uns aos outros por entre areias movediças?

Mas que realidade é esta? Como podemos aceitar que neste mundo é possível mudar governos sem que o povo tenha uma qualquer voz nesse processo? Que mundo? Que sintomas clínicos? Que passos seguros? Para onde vamos? Onde existe o pulsar do sangue? Onde está a bondade? As rugas do conhecimento? De que esperança nos acreditamos portadores? E que esperança existe num mundo onde se elegem pessoas que defendem separações de raça, género, opção amorosa de género? Um mundo que parece voltar atrás a cada dia. Que se amálgama em sangue. Que se amálgama em malefícios de julgamento. Que se aniquila por poder. Que se autodestrói levando consigo tudo. Que nos separa em vez de nos unir. Que não nos dá força para enfrentar a solidão. Que nos faz solidão. Que nos ignora. Que nos abandona num precipício. Num abismo. E de que iremos falar quando não houver água? Quando não houverem manhãs? Quando não houver planeta? Quando nas margens das nossas vozes se tiver apagado o fogo das palavras? De que iremos então falar? Que mundo é este? Que século é este que parece ter destruído todos os valores para os quais se lutou durante tanto tempo?

Que mundo? Que realidade? Onde apetece não saber mais. Não ler mais. Desligar. Fechar os olhos. Deixar acontecer. Calar a alma. Este não é o mundo com que sempre sonhei na minha adolescência. Não. Este não é o mundo da justiça e igualdade e possível felicidade. Nesse meu mundo imaginado na adolescência não existe espaço para presidentes que mandam matar antes de qualquer julgamento, antes de qualquer condenação. Nesse meu mundo imaginado existem valores humanistas. Compaixão. Nesse meu mundo imaginado existe conhecimento e não existem fanatismos. Não existem cegueiras de considerações. Nesse meu mundo existe respeito por todos. Um mundo onde não existe espaço para ditadores e guerras e regimes onde se perseguem as pessoas pelas suas opiniões, pelas suas opções de vida. Mas o mundo não é o meu mundo imaginado na adolescência. Nunca foi. Foi sempre injusto. Foi sempre palco de cobardes sem valores morais que usam a violência para dominar aqueles que não têm hipóteses de se defender. Afinal o mundo parece não ser mais que um jogo de conquistas globais, qual batalha naval, qual risco.

Mas que mundo é este afinal onde se apresentam mísseis nucleares capazes de fazer desaparecer países inteiros ao qual se dá o nome de Satan 2? E há pessoas que acham bem. Um mundo onde se fazem ameaças constantes. Ameaças nucleares. Ameaças de invasão. Ameaças de destruição. Que mundo é este onde o candidato à presidência do país com maior armamento do mundo considera que regimes autoritários são de louvar? Que considera que o estado chinês agiu bem na reacção que teve para com a revolta estudantil em Tiananmen? Que elogia déspotas como Kim Jong Un, Putin, Saddam Hussein. Que acha que as mulheres são julgadas numa escala de 1 a 10. E que defende que as mulheres devem ser penalizadas severamente por terem tido a infelicidade de ter que fazer um aborto. Que se acha acima de tudo e que pode fazer tudo. Que defende divisões de raças e géneros e tudo o mais que é tão horrível de pensar quanto mais dizer.

Mas o que é isto? Mas que mundo é este e o que é que é preciso para que todos estes políticos e pessoas do poder percebam que vivemos todos no mesmo planeta? Que as fronteiras são ridículas? Que somos todos humanos e que temos todos os mesmos direitos independentemente das nossas origens, extractos sociais, raça, género ou opção amorosa? Que temos todos o direito de existir e de ser respeitados e protegidos independentemente de possíveis maiorias e de possíveis escolhas de elites. O que é que é preciso para perceberem isto que é tão básico? Uma invasão extraterrestre?

Que tipo de angústia nos está preparada num futuro próximo?  Que mundo é este onde é possível em Macau cometer um crime tão violento como o crime de violação e tentativa de assassinato que aconteceu nesta última semana? Que mundo é este? O que é isto afinal? Existe esperança? Sou de imediato levado a pensar que não e quero de imediato refugiar-me no amor e nos sorrisos dos meus filhos e na arte e nos livros. Quero de imediato refugiar-me em algo que possa confiar porque o mundo desconfia de todos. Quero de imediato refugiar-me num fio de música. Numa noite que transforma. No rio oculto de emoções que o amor nos dá. No núcleo que arde dentro de nós e que nos altera para melhor ao qual muitas vezes chamamos alma. Nesse sonho onde se elide o sofrimento e onde a eternidade é possível. E refugiado penso que afinal existe esperança. Existe esperança no amor, nos meus filhos, na arte, nos livros, na bondade e em tantas outras coisas tão boas neste mundo. E existe esperança nas pessoas. Em pessoas como o motociclista que, de passagem ao lado de um contentor, conseguiu ver a perna da rapariga violada, esfaqueada, violentamente agredida e deixada pelo seu agressor no lixo com a presunção de que estaria morta. Existe esperança em pessoas como o motociclista que na presença de um crime hediondo não vira a cara e telefona para a polícia e que, com isso, poderá ter salvo uma vida. Mas que mundo é este? Um mundo horrível certamente, no qual não sabemos o que nos destina o dia de amanhã mas temos que acreditar que existe esperança enquanto houverem heróis desconhecidos como este motociclista.

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