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A palavra escrita tem a primazia, não porque seja mais educada ou mais limpa, mas porque tem uma relação especial com “aquilo que não é”, como no poema à página 38, “Poema com muito vago erotismo ao fundo”:

“Não é a mesma  a língua com que te   falo

a  língua

com que te beijo   ou esta língua   outra

em que te escrevo,

a   tinta espessa,      vagamente  húmida.

É preferível escrever-te que beijar-te:

a folha rasa   limpa   é  corpo     liso

acolhendo  quente  o contorno da letra   

e  com  essa língua   sinceramente   falo

e  digo   quase  sinto

o beijo que te escrevo  e  não te  dou.”

A narradora do poema diz ser preferível escrever a beijar o amante, e quase sente o beijo que escreve e não lhe dá. Não é a escrita que está aqui em causa, evidentemente, mas aquilo que não é, aquilo que poderia ser ou não, mas que não é e passa a ser daquele modo poderoso sobre nós “como seria” ou “poderia ter sido tão bom”… A palavra escrita tem o poder do invisível, o poder da liberdade infernal. Se é verdade que a poeta assenta os seus poemas num forte chão parmenidiano, ela mesma escreve “(…) Nada / existe sem palavra que o diga (…)” (p. 40), numa identificação entre ser e pensar (e pensa-se com palavras), também não é menos verdade que há um outro lado mais obscuro de entender a relação entre a palavra e o ser. Rita Taborda Duarte começa o seu poema “Quando muito é um cachimbo” – do qual também fazem parte os últimos versos citados – com este verso: “A palavra nunca é uma palavra, quando muito é um cachimbo (…)” (Ibidem) No mesmo poema em que inscreve a sua herança de Parménides, começa por dizer que a palavra está além ou aquém de si mesma. Sem dúvida, é uma tese metafísica, mas de carga contrária à do filósofo eleata. É então talvez chegado o momento de abordarmos o poema “Lá fiz o poema”, onde a poeta escreve aquilo que poderá ser o modo como ela se relaciona com o fazer do poema. Pode ser ou não, verdade é que, neste poema, é assim que o narrador se mostra na sua relação como o fazer do poema, dos poemas. Podemos estar certos de uma coisa: não é nada fácil encontrar um verbo que defina o “fazer do poema” que a poeta aqui nos traz. Leia-se primeiro o poema, para depois podermos entender melhor as dificuldades que a poeta nos arranjou, e algumas alegrias também, evidentemente:

“Lá fiz o poema  hoje

sequer o escutei, primeiro, pois que nem estava dito     ainda;

os meus poemas não andam sumidos em silenciosinhos cúmplices,

à espera de que eu chegue e venha resgatá-los.

Nada me sussurra voz nenhuma de deus nenhum.

E o meu silêncio sequer é um silêncio-metafórico a murmurar flores escondidas.

É um silêncio silencioso   silêncio oco: sem nada a declarar

por dentro.

E esse silêncio, é curioso, nunca me dita poemas.

Mantém-se calado, tal lhe convém.

Pura e simplesmente, o meu poema não estava em parte alguma,

nem agasalhado em sossegos    nem em qualquer sítio que se percebesse.

Ou se lá estava tanto pior;

que se havia um poema omnipresente embrulhado em silêncios

em todo lado e em qualquer parte,

outro o escutou   o mostrou   o fingiu    o disse,

outro, não eu, que a haver poema passou-me

distraidamente ao lado.

Portanto, resumindo,

este poema que eu fiz nem sequer se encontrava inscrito no mundo por aí

para que eu fosse lá e ao menos partisse as unhas escavando

as pedras.

Em lado nenhum.

O poema que eu fiz não estava em parte nenhuma em nenhum lugar

E tive de ser eu, com certeza, a massacrá-lo letra branca em tecla preta,

a confiscá-lo ao teclado,

sem a musa do outro arrastada pelo cachaço,

e, em mangas de camisa, diria, não fora eu mulher

e não usasse nunca   nem a camisa   nem as mangas   nem o casaco.

Sequer um cigarro onde pudesse ir fumando rimas

por dentro das palavras.

O meu poema

tive de ser eu a escrevê-lo sozinha.

E eu

não escrevo como se tocasse piano, que o portátil não traz uma partitura,

nem ninguém havia, lá, presente ausente para mo trautear.

As teclas fazem barulho, sujam os dedos

e nada tem mais micróbios do que um teclado, dizem.

Foi, portanto, um mau poema:

fiquei cansada

e nem uma folha, ao menos, para amarfanhar.”

(pp. 14-5)

Para além da estrofe final do poema – do mau e do bom poema, de hoje nem  podermos esmagar com as nossas mãos o mal que fizemos -, que seria um outro texto, interessa seguir a pista do que aqui temos seguido. O poema não foi escutado; o poema não veio do silêncio, nem de uma musa; o poema não foi escavado; não foi construído (se fosse, a poeta tê-lo-ia escrito); e também não foi inventado (se fosse, a poeta tê-lo-ia escrito); o poema não chega como uma composição e também não é a execução de uma partitura. O que sabemos do poema é: não estava em parte alguma antes, e teve de ser a poeta a escrevê-lo sozinha, num teclado, que tem mais micróbios do que qualquer coisa do mundo. Com este poema a poeta parece querer destruir a metafísica, que tanto acarinha ao longo dos seus poemas. Pois tudo em Rita Taborda Duarte excede a própria coisa: os corpos, as partes dos corpos (“qualquer coisa dos corpos fica ainda / ainda quando os corpos se levantam”), as palavras (“O desperdício sobrevindo da palavra”), as próprias coisas  (“Só as rugas desta cama enxovalhada / nos perseguem as manhãs, pelo rosto dentro / como a teima de um poema por escrever.”). Tudo, não. Nem tudo excede o si mesmo que é. O fazer do poema é, ou parece ser, a parte não metafísica do mundo. Talvez se entenda melhor se pensarmos que para Rita Taborda Duarte tudo é metafísica, tudo é sempre mais do que é, tudo é o que é e o seu excesso, e a palavra é o lugar onde nós e o excesso nos encontramos. Pois mesmo em silêncio, a palavra arde. Ou dito muito melhor, com versos da poeta: “(…) E no quarto / entranhado na fibra dos lençóis, o cheiro forte e acre, / de uma palavra ardida.” E o fazer do poema é a única coisa concreta que há no mundo (não sabemos se pode ou não ser estendido a outras artes). Fazer um poema é tentar limpar a sujidade da palavra, mantendo nela a centelha ancestral e a vontade do que se quer dizer. Fazer um poema, aqui, neste livro sui generis, é como tudo o que o humano faz, isto é, aquilo que é mais concreto neste planeta: as acções. Só a acção não é metafísica, pois são todas elas éticas, de resto o planeta (adivinha-se o universo) é todo ele, na sua unidade e na multiplicidade dos seus elementos, um excesso de sentido, que a palavra mostra de um modo privilegiado. “(…) Nada / existe sem palavra que o diga (…)” Mesmo aquilo que vive apenas e só nos interstícios da palavra.

É também um livro cheio de ironia, como se deve ter entendido pelos versos citados e, principalmente, pelos títulos dos poemas. Resta-me dizer uma ou duas coisas, antes de terminarmos com a voz da Rita Taborda Duarte: sublinhar que se trata de um livro precioso, onde a palavra é simultaneamente sujeito e objecto (por conseguinte para guardar onde se guardam os vinhos mais preciosos), e deixar um conselho ao leitor: se está a tentar deixar de fumar, não leia este livro. Excerto de “Alfabeto”:

“Faço, então, a cama,

aliso os vincos,  bato a almofada

entalo um gemido breve de palavra, o sinal da pulga,

a pata da borboleta (ou era o veio esgarçado de uma asa ?),

entalo o lençol  puído  no colchão

e sacudo para o chão uma sílaba do teu corpo.

Tua, sim. Não será minha:

As minhas palavras são mais louras e compridas…

Nunca saio à rua, sem esticar os lençóis à cama

com a precisão de quem faz as manhãs todos os dias,

de quem dá um jeito  à vida, antes de se pôr a trabalhar.

Uma cama  bem feita vale bem um verso  terminado,

sem o desperdício das palavras que não rimam.

Há que resgatar o gesto repetido, dia a dia,

como quem cumpre a métrica precisa do poema;

            uma cama desfeita e ao desalinho é um sítio perigoso

para deitar o corpo a descansar, lugar de roturas, ligamentos

            um passo em falso, tropeçado sem cuidado,

e podemos  dar um mau jeito       

ao coração.”

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