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Este artigo surgiu quando ao estudar o pirata Cam-Pau-Sai (nome dado pelos portugueses a Zhang Baozai), à procura dos antecedentes, encontrámos uma outra personagem, Ching Ye. Zheng Yi, em mandarim, era um pretendente a Imperador da China oriundo de uma família de Fujian, ligada logo de início à oposição Ming aos manchus e depois à dinastia Qing. Lutava no mar e em incursões às costas para restaurar a dinastia Ming dos Han e por isso, passou a ser o nosso biografado.

Os acontecimentos referentes ao período de actuação de Ching Ye e depois de Cam-Pau-Sai, onde em permeio ocorreu no ano de 1808 a tentativa de invasão de Macau pelos ingleses e sobre a qual já tratámos, trazem como antecedente a rebelião de Tay-son, aqui aprofundada por Ângela Guimarães: “Em 1773, uma família de comerciantes da província de Binh Dinh, no sul do Vietname, lançou o que ficou conhecido como a rebelião de Tay-son, pretendendo conquistar o poder à dinastia do Imperador Lee, o qual o deixava nas mãos de duas grandes famílias rivais que, desde o século XVI, dominavam o Vietname: os Nguyen no Sul, com capital em Hue e os Trinh no norte, com capital em Hanoi. Numa primeira fase, até à derrota dos Nguyen, em 1785, o Tay-son concentrou a sua atenção no sul. Logo a seguir, em fins desse mesmo ano, conseguiu expulsar os Trinh de Hanoi e instalar-se aí em 1786. O Imperador Lee pediu ajuda ao Império do Meio, de quem era tributário. Três exércitos chineses invadiram o Vietname para restaurar a dinastia Lee, mas, perante a vitória do Tay-son, o Imperador Chienlong (Qianlong) reconheceu e legitimou o Imperador Tay-son Quang Trung, como rei do Annam”. A luta do Tay-son continuou contra os Nguyen do Sul e apesar da vitória em 1789, o que levou os Nguyen, instalados agora em Saigon, a prosseguirem a luta e recuperando aos poucos o território, por fim expulsado do poder em 1802 o Tay-son.

Já em 1796, o Imperador Jiaqing (1796-1820) tinha determinado “pesadas penas para os que se dedicassem à pirataria, ao mesmo tempo que instou os Tay-Son a eliminarem os principais quartéis generais dos piratas”, segundo Vítor Luís Gaspar Rodrigues e com ele continuando, “Após 1799 as autoridades chinesas adoptaram uma política de perdão e pacificação com o intuito de proceder à anulação daquelas forças através da sua inserção na sociedade chinesa, mas, com o acentuar do declínio político-militar dos Tay-Son no Vietname nos primeiros anos do século XIX, tudo se tornou mais difícil. Com efeito, a derrota dos seus exércitos em Julho de 1802, a que se seguiu a captura de Zheng Qi, um dos principais chefes dos piratas e a destruição da sua base em Jiang Ping, provocou um recrudescimento das actividades dos piratas nas costas da província de Guangdong, em virtude de para aí se haverem retirado muitos dos piratas que perdido o apoio vietnamita, buscavam agora um local mais propício às suas actividades predadoras”.

O pirata Zheng Yi

Assim, no último decénio do século XVIII, as costas da província de Guangdong começaram de novo a ser palco das acções dos piratas, que reuniam os Toy-Son, aí actuando para a sustentação dos seus exércitos a combater no Vietname, com bandidos locais e de Taiwan.

“Uma confederação entre os salteadores consolidou a sua força e tornou-os realmente poderosos”, segundo Montalto de Jesus. “Porque os piratas se tivessem organizado numa confederação, em Julho de 1805, as suas actividades adquiriram, a partir dessa data, uma nova feição, mais organizada e sobretudo planificada em função dos interesses dos membros dessa nova entidade político-militar. Com a regularização das diversas bandeiras que haviam subsistido – das 12 iniciais persistiam agora apenas 6 e com a proibição de combates entre si, a que adicionaram o estabelecimento de regras relativas à repartição das presas, os piratas assumiam-se agora como a verdadeira força militar-naval a operar nas costas da província de Guangdong”, segundo Vítor Luís Gaspar Rodrigues, que refere o relato do inglês Glasspole, no The Chinese Repository, quando este esteve cativo junto dos piratas. Glasspole disse que nessa altura “toda a grande armada tinha no comando cinco chefes, independentes entre eles e as suas divisões distinguiam-se pelas suas várias bandeiras. A da bandeira vermelha era a maior e mais forte. Três anos depois foram eles divididos em seis esquadrões, distinguidos pelas bandeiras, vermelhas, amarelas, verdes, azuis, pretas e brancas e se cada uma operava isoladamente, em ocasiões de perigo ou em importantes acções juntavam-se”.

Chefe de uma imensa armada de piratas, que no último quartel do século XVIII infestava o Mar do Sul da China, Ching Ye nos inícios do século XIX vencera com facilidade todos os mandarins que o Vice-Rei de Cantão contra ele enviou. A costa do Sul da China e sobretudo, para maior provocação, a Boca do Tigre, entrada para Cantão no Delta do Rio das Pérolas, encontrava-se infestada de piratas devido à fraca marinha imperial, que estava “mal apetrechada, sem comandantes capazes e composta por militares onde imperava um baixo moral, rever-se-ia, ao longo dos anos, impossibilitada de se opor aos ferozes, disciplinados e adestrados piratas, acumulando com isso derrotas sucessivas”, segundo Vítor Luís Gaspar Rodrigues, que refere o crescimento contínuo das forças dos piratas, “sob o comando de Zheng Yi, possuíam já duas importantes bases, uma situada na península de Lei Zhou, ao Norte de Ainão, e a segunda, na ilha de Lantau, de onde partiam muitos dos seus ataques às costas vizinhas do burgo macaense”. A. da Silva Rego adita: “A revolta tinha dois fins conjuntos: o roubo e a extinção da própria dinastia manchu. Não ocultava Ching Yi os seus verdadeiros intuitos e, por isso, congregou à sua volta bastantes milhares de indivíduos que espalharam o terror por toda a província.”

“Uma confederação entre os salteadores consolidou a sua força e tornou-os realmente poderosos. O seu chefe, Ching Ye, aspirava a nada menos do que o poder imperial”, Montalto de Jesus.

Com Zheng Yi andava no barco a sua mulher, a senhora Zheng Yisao, que, segundo Beatriz Basto da Silva refere para o ano de 1801, “A Senhora Cheng com 26 anos casou-se com um pirata e por isso deixou de viver num Barco de Flores em Cantão. Deixou a prostituição e tornou-se a pirata Cam-Pao-Sai”, usando o que diz Dian Murray, no livro Woman and Piracy an Alternative Route to Power: “Ao deixar de ser pei-pei chai torna-se a pirata Cam-Pao-Sai”. Consultando outros historiadores, Cam-Pao-Sai não era a Senhora Cheng, mas antes um dos braços direito do chefe dos piratas Ching Ye.

Mas em 1807, Zheng Yi morreu afogado após o naufrágio do seu barco durante um tufão.

A Senhora Zheng Yisao

Após a morte do chefe carismático Zheng Yi, a liderança foi assumida pela viúva Zheng Yisao. E continuando com Montalto de Jesus: “A sua viúva, uma mulher extraordinária, assumiu então a chefia, organizou a frota, estabeleceu leis para a manutenção da disciplina, e escolheu para segundo comandante o notório Cam Pao Sai, também conhecido por Chang Pao”. José Ignácio de Andrade refere, “Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua mulher, não só herdeira do posto, mas também da sua audácia no exercício da piratagem. Assim que tomou posse do comando de tão grande poderio, dividiu-o em duas esquadras, e deu o comando delas a dois parentes do marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas ordens. A primeira (arvorando uma bandeira vermelha) e mais possante coube ao célebre Apócha, que depois se chamou Cam-pai-sai e onde sempre residiu a viúva. Apau-tai (cujo nome Montalto diz ser Kwo Po Tai) foi comandar a segunda, composta de 130 embarcações e com bandeira preta.”

E seguindo com Montalto, “Os juncos, especialmente adaptados para fins predatórios e bélicos, eram geralmente estanques, e mais velozes do que os juncos vulgares. Eram de um tipo fino e elegante, a maior parte deles entre setenta e cento e cinquenta toneladas. O maior transportava vinte ou vinte e cinco canhões, com cerca de duzentos homens armados de mosquetões, espadas curtas, vasos de barro cheios de combustível fedorento, e lanças que arremessavam como dardos. A cada junco estava acoplado um barco a remos com seis ou oito canhões giratórios, que habitualmente infestava as aldeias costeiras à noite para cobrar as contribuições. A confederação recebia tributos periódicos e em troca dava salvos-condutos que eram escrupulosamente respeitados, dizendo-se que uma vez a rainha-pirata indemnizou generosamente um barco que fora pirateado apesar de ter salvo-conduto, um caso notável de honra entre ladrões. Os chefes visitavam com as suas esquadras importantes portos, que, se não aceitassem as suas imposições arbitrárias, eram imediatamente pilhados e destruídos.”

Pirataria na Boca do Tigre

Cam-Pau-Sai era o nome dado pelos portugueses a Zhang Baozai. “Cam-pau-sai, homem forte, ardiloso e empreendedor, depois de ter ganhado o afecto dos seus, teve arte de dispô-los a executar qualquer empresa que imaginasse. Com efeito concebeu um projecto tão elevado, que bem se pode comparar com o de Afonso de Albuquerque, quando pretendeu tirar da Meca o corpo do Profeta, e mudar a direcção do rio Nilo, fazendo-o desaguar no mar Roxo para aniquilar deste modo os Turcos no Egipto! Cam-pau-sai tentou coroar-se Imperador dos Chineses e lançar a dinastia Tártara para o Norte da grande muralha, que a divide da China. Começou a fazer guerra tão atroz, que não só paralisou o comércio marítimo nas costas meridionais do Império, mas também fazia desembarques no continente, e arrasava todos os lugares por onde passava”, como refere José Ignácio de Andrade.

Segundo Montalto de Jesus, na “primeira batalha contra Cam Pao Sai resultou na capitulação de uma divisão imperial de vinte e oito juncos, quinhentos canhões e oito mil homens. Os dois encontros seguintes também trouxeram desastres às forças imperiais. Uma vez, contudo, as cem embarcações do almirante Tseng puseram em fuga os piratas. Mas a sua fama cedo se perdeu. Cercado à frente e à retaguarda, foi derrotado. Depois de outro combate de duvidoso resultado, um novo almirante assumiu o comando, apenas para ser totalmente derrotado, pelo que, desesperado, se suicidou. O governo chinês procurou, então, derrotar os piratas cortando-lhes as provisões. Com este fim, a navegação nacional foi interrompida ao longo da costa infestada. Como represália os piratas perpetraram uma série de atrocidades. As forças imperiais, quando capturadas, eram estripadas vivas, uma prática que inspirava tal terror que, à simples vista dos piratas, a frota imperial fugia presa de pânico”, Montalto de Jesus.

“Sendo a cidade de Cantão a mais rica e a mais comerciante, quis embaraçar ali o negócio com os europeus. Para esse fim veio postar suas forças na embocadura do rio Tigre e em todos os canais que formam as ilhas vizinhas de Macao”, José Ignácio de Andrade e Montalto de Jesus explicita, “Só no canal de Heangshan, diz-se, caíram vítimas mais de quinze mil pessoas. Não contentes com pilhar as embarcações chinesas, os piratas atacavam também os barcos estrangeiros, atrevendo-se às vezes a ficar ao alcance das fortalezas de Macau enquanto tentavam interceptar barcos com provisões para a colónia”.

“Assombrando assim Cam-pau-sai os mares das ilhas da Cantão com seu poder, não se limitou a perseguir seus irmãos Chineses, também se atreveu a insultar os navios da Europa. Vendo o Governo de Macao o risco em que ficava, rodeado de imensa força inimiga, na estação em que todos os navios da praça se achavam ausentes; mandou a Bengala fazer um brigue para ficar de guarda costa, em quanto estes não se recolhiam: porque em os piratas sabendo, não haverem navios dentro do porto, que os fossem acometer, chegavam quasi ao alcance da artilharia das nossas fortalezas, para embaraçarem os mantimentos, que todos os dias entram na Cidade”, segundo José Ignácio de Andrade, na Memória dos feitos macaenses contra os piratas da China.

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