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Parecer. Não. Nunca, em lugar de ser, parecer. Dizia , lugar. Em lugar de ser, lugar. Em lugar de ser lugar. Passe a repetição e a exaustão. Portanto, lugar. E ser lugar como privilégio de ser e porvir. Equação. Dilema ou possibilidade. Ou simplesmente o vago lugar, confortável, a visitar, a alugar, a habitar. A querer. Sei lá.

Paradigma. Casa. Corpo. Pele ou pêlo a cobrir. Casa ou espelho. De envolver ou ver na passagem. Esta é a diferença. O pé que se tem nas coisas. Mesmo sólidas de estado. Só depois as metáforas. A deriva gasosa e impermanente da Psique. A fuga, as metástases da matemática e dos conceitos a formatar discos e a desfazer e refazer sinapses.

O que está escrito nas estrelas, como destino inalterável, e com uma vaga impressão de transcendência. Um apelo da fé nas coisas ocultas, talvez como consolo para a eterna questão insatisfeita. O que fazemos aqui, de onde viemos e para que desconhecido nos movemos. Ou, pelo contrário, aquele que é o lugar da ciência. O rigor firme que afinal, em cada momento vem a verificar em si próprio a falibilidade e a repôr novas ordens para a concepção do mundo. Estranha deriva no lugar em que menos se poderia esperar encontrá-la. No fundo queremos sempre saber o futuro. Oscilamos entre o temor e a tentação.

Pensando em alguns edifícios conceptuais quase inalcançáveis, ao ponto de se situarem num universo ficcional, intelectual e estranho, em que, para realidades complexas se criam instrumentos intelectuais específicos, instrumentos de medida e localização de ordem tão abstrata para os sentidos, quase sinto a tentação de acreditar no divino. De tão inimaginável, a crença, a fé, quase me parece mais fácil do que abarcar toda a complexidade em que nos perdemos face a uma dimensão física do mundo. A Cosmologia em mutação ao longo da História do humano. A mente a divergir e a complexificar mecanismos de entendimento de si própria. A tentar explicar por palavras e fórmulas dessa imensa construção que é o universo matemático, aquilo que a mente não consegue visualizar ou imaginar facilmente. O antes. O depois. Do nada.

E no meio, um universo a expandir-se afinal aceleradamente. Uma certeza científica com cinco anos. Nada, na ordem de grandeza do espaço-tempo do universo. E até ver. Ao contrário de uma certa esperança científica ou meramente existencial, de que este abrandasse. Sossegasse o futuro incerto numa certa forma de estabilidade. Seria o eterno presente do universo. Talvez. Na realidade não sei de todo de que estou a falar. Talvez da deriva cósmica, a tentar encontrar uma equivalência à deriva existencial em que explodimos do nada para uma infância de também eterno presente, por uns tempos, e daí para um futuro em que a idade e a percepção do tempo, parecem ir-se definindo e sentindo em aceleração constante. O humano em deriva constante, é o que sinto. Uma procura imparável de localização numa métrica de coordenadas ao alcance do próprio humano. Na sua dimensão mista. Pequena, ao alcance da medida dos objectos, ou enorme, vaga e não mensurável, em procura pelo vazio dos espaços cósmico da alma, do espírito ou do intelecto. Sim, às vezes não sei bem de que estou a falar senão de uma sensação enorme de desconforto que me ultrapassa. Ou desta ideia de que um dia destes, começo a acreditar numa origem divina para explicar o universo e tudo nele. Porque é mais fácil. E uma ideia plena de esperança. Sem problemas de tempo ou espaço. Isto, digo eu por preguiça. De continuar a  tentar uma ideia confortável para os dias. A sucessão dos dias.

Comecei a dizer. E depois, nada. E nada. E bem lá no fundo, onde tudo está sepultado – depositado, digo – digo. É ali e dali que tudo vem e vai como refluxo. Mas volta. Vira-se, adormece. Ao de cima, por vezes. Porque lá no fundo, tudo acordado na espertina eterna. Um dia, hei-de ir de mim para fora por exaustão. Um dia qualquer. Esperando encontrar outro em que viver em paz. Não em mim. Isto digo eu. Confinada a mim. E só por dizer.

Diz a ciência, então, que a expansão crescente do universo continua a agigantar o que já era imenso. Que uma força desconhecida e imensa o estica imparável e continuará a esticar até ao fim. Embutida no tecido do espaço, energia escura, afinal predominante. Imensa de tamanho e poder. O maior dos enigmas. Quase uma expressão poética e assustadora no que afinal é só uma descrição de ordem física. A cor do medo.

E pensar que parti do erro de paralaxe. Movemo-nos e pensamos que é o universo que se move independente de nós. Porque parece. Porque é a ilusão do olhar. Ou a paralaxe cognitiva, o eixo da construção teórica a deslocar-se do eixo de experiencia humana real. Como em Kant, a incognoscibilidade da “coisa em si”, do ponto de vista material, e a sua pura existência como fenómeno. Como aparência. Ou que nunca estamos no mesmo lugar, nesta deriva consonante com o universo. E com os sentidos. Em que o que se move, é numa realidade qualquer fervilhante de organismo monstruoso. Podemos não estar de facto nunca no mesmo lugar. Mas há pontes constantes entre tudo e tudo. Rígidas ou flexíveis e ajustáveis. Rupturas, também. Estrelas cadentes como se o fossem, quando, afina, ínfimas poeiras. Movemo-nos. Olhamos o mundo. Parece que se moveu. Uma megalomania planetária de que tudo o mais fossem satélites. Movemo-nos e reclamamos do mundo.

Ou sonho de árvore. Que para cair, precisa de uma doença grave que lhe corroa as raízes entranhadas no lugar, ou dentes afiados do homem, por detrás dos braços, por detrás de uma serra. Ou que a terra se revolva em convulsão de reajuste. Interino. Ou na fúria cega dos elementos sazonais. De resto, fica. Sossegada e acolhedora na sua sombra. Precisar de um lugar. Por isso a casa. Pele da pele.

E precisar de me sentar a uma mesa de madeira sólida, pousar as mãos na memória refeita de uma árvore desconhecida, estender uma toalha branca escrita a bordados suaves por outras mãos, e beber uma chávena de chá. Quente. A pensar no futuro de gelo que a ciência adivinha para o universo. Um depois impreciso mas certo. Mas não agora.

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