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O Príncipe de Yu, cujo nome era Aisin-gioro Duoduo, famoso general manchu que ajudou à fundação da dinastia Qing em 1644, seguiu com o seu exército para Nanjing onde entrou no Verão de 1645, terminando com o primeiro regime da dinastia Ming do Sul, que teve um ano de existência. “Dois meses após a queda de Nanjing, dois outros regimes Ming do Sul emergiram, em Fujian e Zhejiang, respectivamente. Huang Daozhou e Zheng Zhilong suportavam o Príncipe de Tang (Zhu Yujian) como imperador em Fujian, e Qian Suyue e Zhang Huangyan suportavam o Príncipe de Lu (Zhu Yihai) como ‘Nacional Supervisor’ em Shaoxing, Zhejiang. Zheng Zhilong (que na semana anterior esteve em destaque) era quem tinha o real poder no regime do Príncipe de Tang, mas apenas sabia explorar as pessoas e nada mais; consequentemente não havia grande esperança. No Verão de 1646, o exército Qing atacava Fujian e Zheng Zhilong rendeu-se”, Bai Shouyi.

Após a conquista pelos manchus de Fuzhou (Fujian) em Outubro de 1646 e executado o Imperador Long Wu (Zhu Yujian, príncipe de Tang), o seu irmão mais novo, Zhu Yuyue escapando de barco chegou a Guangzhou onde fundou um estado Ming, tendo em 11 de Dezembro de 1646 ficado com o título de reinado Shao Wu. Mas Youlang também se entronizara imperador, guerreando-se ambos pelo trono, e após pouco mais de um mês, Li Chengdong, um ex-comandante da dinastia Ming do Sul que liderava um pequeno grupo de tropas Qing, aí capturou e matou Shao Wu. Sobrava Zhu Youlang, que desde 18 de Novembro de 1646 ostentava o título de Imperador Yong Li e foi para Zhaoqing (Guangdong) devido ao suporte que recebeu de Qu Shisi, Oficial Ming de alta patente que tinha a cargo a defesa de Guangdong e Guangxi. Os manchus ocuparam Cantão em Janeiro de 1647, onde se encontrava Yong Li, que fugiu para Guilin, seguindo os manchus no seu encalço. Aí, entre Março e Julho esteve cercado mas, com a ajuda de trezentos portugueses de um contingente comandado por Nicolau Ferreira, após cinco meses, os manchus retiraram-se. A desistência dos manchus de cercar Guillin, animou a revolta e sete províncias no Sul da China puseram-se à ordem de Yong Li.

O Príncipe de Yongming (Zhu Youlang), como Imperador Yong Li (1646-1662), conseguiu aguentar o regime por um período de quinze anos, devido à cooperação que lhe foi prestada pelo exército armado de camponeses e o heroísmo de alguns dos seus generais. Andando sempre em fuga, Yong Li foi capturado já na Birmânia (hoje Myanmar) em Dezembro de 1661 e morreu a 1 de Junho de 1662, sendo o quarto e último Imperador da dinastia Ming do Sul.

Tirar da costa a população

A dinastia Qing entregou um cargo da governação de Guangzhou (Cantão) a Li Chengdong, mas este, desiludido com os novos senhores da China, apoiou Yong Li colocando de novo a cidade sobre o domínio Ming. Então, os manchus aí montarem durante dez meses um cerco, que terminou em 24 de Novembro de 1650, provocando 70 mil mortos. Foi a grande machadada na resistência Ming, que na parte Oriental da China ficou confinada ao mar. Aí, o General Comandante da Armada, Zheng Chenggong, é derrotado em 1659, no estuário do Rio Yangtzé. Após esta batalha, o pirata cujos europeus chamavam Coxinga voltou a Fujian e daí partiu à frente de 25 mil pessoas para Taiwan, onde tomaram a ilha aos holandeses e para onde muitos habitantes de Fujian foram viver.

“O cerco a Nanquim, em 1659, e as vitórias no mar de Cheng Cheng Lung e de seu filho, Coxinga (Cheng Cheng Kung) amedrontaram os manchus e, analisando as possíveis causas da força rebelde, designadamente as dos meios económicos em que apoiavam o seu poderio, concluíram que eles provinham do comércio marítimo que havia muitos anos conduziam livremente entre o Japão, o Ainão (Hainan) e a costa chinesa. E também dos saques dos navios que comerciavam entre os portos da China e do estrangeiro, dos quais as armadas de Coxinga se apoderavam. Esta conclusão levou ao decreto imperial publicado na 8.ª lua de 1661 que ordenou a retirada de todas as populações de cinco províncias marítimas (entre elas a de Kwangtung, Guangdong em mandarim) para um mínimo de 30 lis da costa (cerca de quatro léguas). Criava assim a terra queimada que evitaria contactos com Coxinga, esgotando as suas possibilidades de negociar com chineses e de aliciar seguidores dos Ming. A pena para os que desobedecessem era a morte”, segundo refere Gonçalo Mesquitela.

Em 1661, a resistência dos han Ming aos manchus quebrou e os novos governantes não tinham grandes relações com o mar. Segundo Victor F. S. Sit, “Na dinastia Qing (1644-1911), a política de interdição das actividades marítimas levou à evacuação forçada das regiões costeiras. Ao longo de grande parte do período em que essa dinastia imperou, o comércio marítimo só foi permitido numa única área, a de Macau – Cantão, embora outros três portos tivessem permanecido abertos durante algum tempo. Desse modo, a enorme rede de tráfego marítimo entre a China e o ultramar, ficou praticamente extinta entre meados do séc. XVI e meados do séc. XIX. O que sobrevivia não passava de algumas actividades de comércio ilegal. Foi exactamente nessas circunstâncias que Macau emergiu como praticamente o único entreposto comercial legal entre a China e os países estrangeiros, através de Cantão”.

Renascimento de Macau

Em 17 de Abril de 1708 saiu de Macau, com destino a Manila, uma chalupa de Luís de Abreu conduzindo alguns padres dominicanos expulsos das missões da China pelo cardeal De Tournon. Ao passar na ilha dos Ladrões foi a embarcação assaltada pelos chineses, tendo acudido várias lorchas da cidade que aprisionaram os piratas.

Na dinastia Qing, em 1718 o Imperador Kang Xi (1662-1722) proibiu severamente todos os seus vassalos de usar a navegação marítima, de sorte que por força daquele Decreto se arruinou inteiramente o comércio da Holanda naquele Império; porque, como lhes não era permitido entrar nos seus portos, mandavam todos os anos a Cantão muitas Somas; que eram embarcações de comércio conduzidas pelos chineses moradores em Batávia; e como estes eram vassalos do Imperador não podiam, sob pena de morte, entrar no seu Império, se reduziu a célebre e riquíssima Companhia da Holanda a não ter géneros da China, senão pelas embarcações portuguesas de Macau. Como consequência deste édito do Imperador, o número de navios registados ou equipados em Macau aumentou de nove para vinte e três em um só ano. Esta proibição de navegação, ou antes a sua limitação a Macau, só durou até 1723. Informações de José Ignácio de Andrade. O governo chinês pensou em estabelecer um monopólio do comércio marítimo do império com o estrangeiro em Macau, enviando para lá residirem os mercadores da Companhia Inglesa que moravam em Cantão. O Senado rejeitou a proposta, segundo parece por instâncias do Bispo e clero que não viram com bons olhos o estabelecimento de tantos hereges na Cidade do Santo Nome de Deus, decisão esta que foi mui asperamente censurada pelo Vice-rei da Índia, Conde da Ericeira.

De desempregados a piratas

“Com efeito, a província de Guangdong assistira na segunda metade do século XVIII a um enorme surto de desenvolvimento populacional que não foi acompanhado por igual expansão dos seus recursos económicos. (…) O aumento do número de deserdados e a sua concentração junto à costa, implicou o surgimento de um vasto núcleo de indivíduos potencialmente predispostos a dedicarem-se a qualquer tipo de actividades marginais, transformando-se, por isso, num grande centro de recrutamento de populações para as esquadras de piratas que cruzavam a região”, segundo Vítor Luís Gaspar Rodrigues, que continua, “Se a estes factores adicionarmos outros, de ordem geográfica (o grande número de ilhas que bordejavam a costa e a presença de numerosos estuários de rios que permitiam um fácil refúgio a piratas e ladrões) e económica (presença de um rico e vultoso comércio operado por navios chineses e europeus, muito facilitado pelas óptimas ligações fluviais; importância de Guangdong, que se havia tornado desde 1756 no único porto do império chinês aberto às trocas comerciais com os ocidentais), teremos uma ideia aproximada das razões que conduziram a uma rápida proliferação do número de piratas nas costas sul do mar da China, com particular incidência em torno de Guangdong e Macau.”

Jorge de Abreu Arrimar refere, “É interessante ver como as relações da China com o Vietname, um país seu tributário, a leva a apoiar o imperador Lee quando este se vê confrontado com a revolta que, a partir de 1773, uma família de comerciantes da província de Binh Dinh inicia, e que ficou conhecida por revolta de Tay-son. Contra esta rebelião o imperador da China enviou ajuda militar ao imperador Lee, o qual, apesar de sérios revezes, acabaria por expulsar definitivamente do território os seguidores de Tay-son, em 1802. Ora, durante as três décadas de guerra entre os seguidores de Tay-son e os do imperador Lee, aqueles foram estabelecendo muitos laços de dependência com os piratas, que desde sempre existiam naquela região, integrando os diversos e dispersos bandos e organizando as suas forças como se fosse um exército.” E Vítor Luís Gaspar Rodrigues adita, “As acções dos piratas nas costas da província de Guangdong só passaram a revestir-se de alguma importância a partir da década de noventa (1791-1792), quando os Toy-Son (…) necessitando de debelar a grave crise económica e financeira que atravessavam, passaram a enviá-los em expedições mais ou menos regulares para o sul da China com o intuito de aí procederem à arrecadação de géneros e dinheiro ao mesmo tempo que recrutavam mais gente (…), estes raides, vitais para a sustentação dos exércitos Tay-Son, tinham lugar, em regra, por volta do quarto mês lunar, regressando ao Vietname, entre o nono e o décimo mês, depois de atingirem, nalguns casos, as províncias de Fujian e de Zhejiang onde, a exemplo do que sucedia por vezes em Guangdong, se coligavam com bandidos locais”.

Aprontar embarcações

Com grande afluência de bandidos da Cochinchina e da Formosa (como os portugueses chamavam a Taiwan), então em rebelião, sendo muitos provenientes da participação na revolta de Tay-son, os piratas ameaçavam a costa da província de Guangdong. Por isso, “Já em 1792, o mandarim de Heangshan desejou que Macau equipasse dois barcos para proteger os acessos marítimos a Cantão. A proposta foi feita em nome do bem-estar público; mas tais considerações passaram para último plano quando, em troca, Macau estipulou a restituição dos seus antigos privilégios, cuja usurpação os mandarins evidentemente preferiam ao bem-estar de uma grande população marítima sob a sua legítima jurisdição e ineficiente protecção. As negociações fracassaram face à exigência portuguesa…”, Montalto de Jesus.

“Não obstante todas estas reservas colocadas por alguns elementos presentes (do Senado), assentaram, a 16 de Fevereiro de 1792, que se aprontassem as embarcações, para o que procederam à compra da chalupa inglesa <Gustavus> por 13 mil patacas. No entanto, poucos meses depois, e quando só faltava aprestar a tripulação <declarou o mandarim que não era preciso o socorro, ficando a despesa feita e a cidade sem privilégios>”, como refere Vítor Gaspar Rodrigues, e com ele continuando, “o Senado que, em conjunto, e contra o parecer do Governador, passou a defender a manutenção de uma política não intervencionista” e convencidos das vantagens que lhes adivinham de uma presença forte de piratas nas imediações, pelos problemas que causavam à navegação chinesa, viriam a opor-se ao Governador quando este, em Dezembro de 1792, insistiu para que se armassem duas embarcações por conta da Fazenda Real para fazer uma acção de guerra”. Perante a recusa do Senado, foi o Gustavus vendido em Dezembro.

“Seis meses mais tarde, em 8 de Julho de 1793, porque as embarcações dos piratas ameaçassem já, de alguma forma, o comércio de Macau, esses mesmos cidadãos mostraram-se prontos a colaborar com os seus barcos para uma expedição proposta pelo Governador da cidade, composta por três navios destinados a andar de guarda-costa até meados de Setembro”, Vítor Luís Gaspar Rodrigues no livro Estudos de História do Relacionamento Luso-Chinês – Séculos XVI-XIX, com organização e coordenação de António Vasconcelos de Saldanha e Jorge Manuel dos Santos Alves, Colecção Memórias do Oriente, 1995, IPOR.

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